No mês onde é comemorada a visibilidade trans e pela segunda vez uma travesti participa de um dos principais programas de televisão do país, homens e mulheres catarinenses ainda vivem à margem da sociedade sofrem diariamente com a transfobia, enquanto lutam para quebrar paradigmas e ocupar espaços após anos de invisibilidade
REPORTAGEM
Luana Amorim
WEB DESIGN
Tayná Gonçalves
EDIÇÃO
Raquel Vieira
IMAGENS
Patrick Rodrigues, Tiago Ghizoni
No mês onde é comemorada a visibilidade trans e pela segunda vez uma travesti participa de um dos principais programas de televisão do país, homens e mulheres catarinenses ainda vivem à margem da sociedade sofrem diariamente com a transfobia, enquanto lutam para quebrar paradigmas e ocupar espaços após anos de invisibilidade
REPORTAGEM
Luana Amorim
WEB DESIGN
Tayná Gonçalves
EDIÇÃO
Raquel Vieira
IMAGENS
Patrick Rodrigues, Tiago Ghizoni
Em anos, Lirous teve que enterrar amigas que perderam a luta contra a transfobia
Foto: Tiago Ghizoni
Em anos, Lirous teve que enterrar amigas que perderam a luta contra a transfobia
Foto: Tiago Ghizoni
Aquele trajeto era comum na vida de Lirous K’yo Fonseca Ávila. De manhã, após se arrumar no apartamento onde vive no bairro Agronômica, em Florianópolis, para mais um dia de aula, ela foi até o ponto de ônibus, próximo a Penitenciária da Capital, onde pegou o transporte até a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Como de costume, desceu do veículo na praça próxima ao centro acadêmico onde cursava assistência social e passou a caminhar por entre as árvores, enquanto observava os macacos que passeavam por ali. Porém, assim como já havia acontecido há alguns dias, percebeu algo diferente ao terminar o trajeto: uma parte do seu cabelo estava molhado.
Demoraram mais alguns passeios para que a jovem descobrisse o motivo “misterioso” para que aquilo acontecesse toda a manhã: da janela de outro ônibus, uma mulher, desconhecida, colocava diariamente a cabeça para fora e cuspia sobre ela enquanto andava pela calçada.
Este é apenas um retrato da violência silenciosa em que mulheres transgênero, como Lirous, sofrem diariamente em diferentes espaços. São olhares, palavras, agressões e xingamentos que acanham e machucam aqueles que só buscam por um espaço dentro de supermercados, universidades e, principalmente, na sociedade. Um medo que faz com que muitos fiquem presos em verdadeiros “casulos” até que tenham coragem para lidar com os dilemas de quem é trans e travesti no país que mais mata pessoas desse gênero no mundo.
Ao mesmo tempo, mulheres e homens trans lutam para garantir seu espaço em meio a atos diários de transfobia. Um exemplo é que, pela segunda vez em 22 edições, o Big Brother Brasil, maior reality show do país, tem entre suas participantes uma travesti.
A cantora e atriz Linn da Quebrada, um dos novos nomes da cultura brasileira, entrou no programa no dia 20 de janeiro. Porém, mesmo se apresentando como uma mulher, já passou por episódios considerados transfóbicos pelo público ao ser chamada pelo pronome masculino, por exemplo, mesmo com a palavra “Ela”, literalmente, tatuada na testa para quem quiser ver – o que reforça o esforço diário dessa população para garantir o respeito por sua identidade.
A resistência também é capaz de quebrar paradigmas e se posicionar. Como a médica que trabalha em uma cidade com pouco mais de 3 mil habitantes em Santa Catarina e que, aos 52 anos, resolveu que era hora de assumir sua identidade como mulher.
Ou a fonoaudióloga que, após sofrer de diferentes preconceitos na universidade, conseguiu o diploma e, agora, espera com a profissão ajudar outras pessoas como ela. Algo que há dez anos era praticamente impossível.
São histórias que trazem à tona a visibilidade transexual em Santa Catarina neste dia 29 de janeiro – data em que o movimento é comemorado – e como o investimento em políticas públicas – que são inexistentes – podem mudar diferentes realidades.
Aquele trajeto era comum na vida de Lirous K’yo Fonseca Ávila. De manhã, após se arrumar no apartamento onde vive no bairro Agronômica, em Florianópolis, para mais um dia de aula, ela foi até o ponto de ônibus, próximo a Penitenciária da Capital, onde pegou o transporte até a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Como de costume, desceu do veículo na praça próxima ao centro acadêmico onde cursava assistência social e passou a caminhar por entre as árvores, enquanto observava os macacos que passeavam por ali. Porém, assim como já havia acontecido há alguns dias, percebeu algo diferente ao terminar o trajeto: uma parte do seu cabelo estava molhado.
Demoraram mais alguns passeios para que a jovem descobrisse o motivo “misterioso” para que aquilo acontecesse toda a manhã: da janela de outro ônibus, uma mulher, desconhecida, colocava diariamente a cabeça para fora e cuspia sobre ela enquanto andava pela calçada.
Este é apenas um retrato da violência silenciosa em que mulheres transgênero, como Lirous, sofrem diariamente em diferentes espaços. São olhares, palavras, agressões e xingamentos que acanham e machucam aqueles que só buscam por um espaço dentro de supermercados, universidades e, principalmente, na sociedade. Um medo que faz com que muitos fiquem presos em verdadeiros “casulos” até que tenham coragem para lidar com os dilemas de quem é trans e travesti no país que mais mata pessoas desse gênero no mundo.
Ao mesmo tempo, mulheres e homens trans lutam para garantir seu espaço em meio a atos diários de transfobia. Um exemplo é que, pela segunda vez em 22 edições, o Big Brother Brasil, maior reality show do país, tem entre suas participantes uma travesti.
A cantora e atriz Linn da Quebrada, um dos novos nomes da cultura brasileira, entrou no programa no dia 20 de janeiro. Porém, mesmo se apresentando como uma mulher, já passou por episódios considerados transfóbicos pelo público ao ser chamada pelo pronome masculino, por exemplo, mesmo com a palavra “Ela”, literalmente, tatuada na testa para quem quiser ver – o que reforça o esforço diário dessa população para garantir o respeito por sua identidade.
A resistência também é capaz de quebrar paradigmas e se posicionar. Como a médica que trabalha em uma cidade com pouco mais de 3 mil habitantes em Santa Catarina e que, aos 52 anos, resolveu que era hora de assumir sua identidade como mulher.
Ou a fonoaudióloga que, após sofrer de diferentes preconceitos na universidade, conseguiu o diploma e, agora, espera com a profissão ajudar outras pessoas como ela. Algo que há dez anos era praticamente impossível.
São histórias que trazem à tona a visibilidade transexual em Santa Catarina neste dia 29 de janeiro – data em que o movimento é comemorado – e como o investimento em políticas públicas – que são inexistentes – podem mudar diferentes realidades.
Oficialmente, não existem dados sobre o tamanho da população transgênero no país e em Santa Catarina. Entidades chegaram a entrar na Justiça, pedindo para que o Censo 2022 incluísse a população no próximo levantamento. Porém, o pedido não foi atendido.
No ano passado, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) chegou a emitir uma nota a respeito da polêmica. A entidade alegou que “questões de identificação, que exigem o próprio como respondente, não são compatíveis com uma operação censitária, a qual tem um morador por domicílio, que responde por si e pelos demais moradores, a garantir a qualidade de seus resultados, não havendo como mudar esse aspecto técnico-operacional” e que, “a investigação de gênero é considera quesito sensível, ou seja, quesito que pode ser considerado invasivo e pessoal pelo respondente, podendo impactar na coleta de todas as demais informações”.
Para Ale Mujica, mestre e doutore em Saúde Coletiva pela UFSC, essa falta de informação é um dos motivos para que a população trans continue marginalizada.
— Quando pensamos nessas questões, temos uma falta em geral [de dados] sobre as pessoas LGBTQIAP+, que se intensifica ainda mais com pessoas trans. Quem faz esse trabalho ainda são as ONGs, os movimentos sociais. Somos nós que estamos produzindo esses dados para mostrar pro Estado e para as pessoas as diferentes situações — pontua.
Recentemente, um dos estudos inéditos sobre o gênero foi realizado pela Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB) no interior de São Paulo. Publicado em janeiro do ano passado, a pesquisa ouviu 6 mil brasileiros. Com a amostra, a estimativa dos idealizadores é que cerca de 1.090.200 brasileiros possam se identificar como transgênero, enquanto 1.880.200 seriam não-binários.
Outro dado apontado pela pesquisa foi a média de idade entre os entrevistados. De acordo com os autores, as pessoas que se identificam como transgênero eram mais jovens do que os cisgêneros. Isto, segundo o estudo, pode estar relacionado com a expectativa de vida de pessoas trans ou travestis.
A estimativa é de que um transgênero no Brasil viva até os 35 anos. O número é menor que a metade da expectativa de vida brasileira. Em 2020, segundo dados do IBGE, a idade média de um brasileiro era de 76,8 anos.
Uma das principais causas da baixa expectativa de vida é a violência, outro dado que é invisível por meio dos canais oficiais. Em Santa Catarina, por exemplo, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) não possui em seu sistema uma classificação para identificação de transgêneros em crimes.
A única informação a respeito da população são os casos onde os envolvidos tem um sexo diferente do gênero. O Diário Catarinense pediu, via Lei de Acesso à Informação (LAI), os dados referentes aos crimes de homicídio, tentativa de homicídio e suícidio envolvendo pessoas transgênero em Santa Catarina entre 2019 e 2021. Apenas seis casos foram identificados: três homicídios e três tentativas de suícidio, sendo que quatro foram registrados na capital, Florianópolis.
Oficialmente, não existem dados sobre o tamanho da população transgênero no país e em Santa Catarina. Entidades chegaram a entrar na Justiça, pedindo para que o Censo 2022 incluísse a população no próximo levantamento. Porém, o pedido não foi atendido.
No ano passado, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) chegou a emitir uma nota a respeito da polêmica. A entidade alegou que “questões de identificação, que exigem o próprio como respondente, não são compatíveis com uma operação censitária, a qual tem um morador por domicílio, que responde por si e pelos demais moradores, a garantir a qualidade de seus resultados, não havendo como mudar esse aspecto técnico-operacional” e que, “a investigação de gênero é considera quesito sensível, ou seja, quesito que pode ser considerado invasivo e pessoal pelo respondente, podendo impactar na coleta de todas as demais informações”.
Para Ale Mujica, mestre e doutore em Saúde Coletiva pela UFSC, essa falta de informação é um dos motivos para que a população trans continue marginalizada.
— Quando pensamos nessas questões, temos uma falta em geral [de dados] sobre as pessoas LGBTQIAP+, que se intensifica ainda mais com pessoas trans. Quem faz esse trabalho ainda são as ONGs, os movimentos sociais. Somos nós que estamos produzindo esses dados para mostrar pro Estado e para as pessoas as diferentes situações — pontua.
Recentemente, um dos estudos inéditos sobre o gênero foi realizado pela Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB) no interior de São Paulo. Publicado em janeiro do ano passado, a pesquisa ouviu 6 mil brasileiros. Com a amostra, a estimativa dos idealizadores é que cerca de 1.090.200 brasileiros possam se identificar como transgênero, enquanto 1.880.200 seriam não-binários.
Outro dado apontado pela pesquisa foi a média de idade entre os entrevistados. De acordo com os autores, as pessoas que se identificam como transgênero eram mais jovens do que os cisgêneros. Isto, segundo o estudo, pode estar relacionado com a expectativa de vida de pessoas trans ou travestis.
A estimativa é de que um transgênero no Brasil viva até os 35 anos. O número é menor que a metade da expectativa de vida brasileira. Em 2020, segundo dados do IBGE, a idade média de um brasileiro era de 76,8 anos.
Uma das principais causas da baixa expectativa de vida é a violência, outro dado que é invisível por meio dos canais oficiais. Em Santa Catarina, por exemplo, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) não possui em seu sistema uma classificação para identificação de transgêneros em crimes.
A única informação a respeito da população são os casos onde os envolvidos tem um sexo diferente do gênero. O Diário Catarinense pediu, via Lei de Acesso à Informação (LAI), os dados referentes aos crimes de homicídio, tentativa de homicídio e suícidio envolvendo pessoas transgênero em Santa Catarina entre 2019 e 2021. Apenas seis casos foram identificados: três homicídios e três tentativas de suícidio, sendo que quatro foram registrados na capital, Florianópolis.
Em contrapartida, um levantamento realizado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) apontou que, só entre 2020 e 2021, seis transgêneros foram assassinadas em Santa Catarina – 4 e 2 mortes, respectivamente. Os dados fazem parte do Dossiê: Assassinatos e Violência Contra Travestis e Transexuais Brasileiras.
A edição publicada nesta sexta-feira (28), que traz dados de 2021, coloca o Estado em 21º lugar entre as 27 unidades de federação com duas mortes registradas. São Paulo é o que tem o maior número de vítimas, com 25. Só no ano passado, foram 140 assassinatos de pessoas trans no país, segundo a Antra: 135 travestis ou mulheres e cinco casos de homens ou pessoas transmasculinas.
O levantamento também traz outros dados a respeito da violência contra a população trans. Em 2012, dentre os 100 casos em que foi possível identificar a idade das vítimas, 53 tinham entre 18 e 29 anos, o que corresponde a 53%. Porém, o que chama a atenção é de que, só em 2021, cinco casos foram contra vítimas que tinham entre 13 e 17 anos.
Além disso, 78% das mulheres travestis e transgênero eram profissionais do sexo, sendo que a maioria dos casos ocorreram, principalmente, em ruas desertas e à noite.. Uma realidade assustadora dentro da comunidade.
— Nós, enquanto mulheres, sabemos da violência que sofremos. Mas eu sempre questiono: quantas amigas você perdeu nesses últimos anos? Se eu for contar, só em 2021, foram quatro por violência. E sempre mortas de forma brutal. Eu me lembro quando a Jennifer, uma trans que foi assassinada nos Ingleses [bairro de Florianópolis], recebeu uma barraca com o seu nome no dia da mulher em homenagem a ela. Eu me lembro que a primeira frase que eu disse foi ‘qual será o dia que eu não vou mais estar aqui e vai ter uma barraca com o meu nome?’. Quando a gente sabe que uma amiga sofreu uma violência ou veio a falecer é um misto de tristeza e alívio. O alívio vem por não ter sido a gente — conta a assistente social Lirous Fonseca.
Em contrapartida, um levantamento realizado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) apontou que, só entre 2020 e 2021, seis transgêneros foram assassinadas em Santa Catarina – 4 e 2 mortes, respectivamente. Os dados fazem parte do Dossiê: Assassinatos e Violência Contra Travestis e Transexuais Brasileiras.
A edição publicada nesta sexta-feira (28), que traz dados de 2021, coloca o Estado em 21º lugar entre as 27 unidades de federação com duas mortes registradas. São Paulo é o que tem o maior número de vítimas, com 25. Só no ano passado, foram 140 assassinatos de pessoas trans no país, segundo a Antra: 135 travestis ou mulheres e cinco casos de homens ou pessoas transmasculinas.
O levantamento também traz outros dados a respeito da violência contra a população trans. Em 2012, dentre os 100 casos em que foi possível identificar a idade das vítimas, 53 tinham entre 18 e 29 anos, o que corresponde a 53%. Porém, o que chama a atenção é de que, só em 2021, cinco casos foram contra vítimas que tinham entre 13 e 17 anos.
Além disso, 78% das mulheres travestis e transgênero eram profissionais do sexo, sendo que a maioria dos casos ocorreram, principalmente, em ruas desertas e à noite.. Uma realidade assustadora dentro da comunidade.
— Nós, enquanto mulheres, sabemos da violência que sofremos. Mas eu sempre questiono: quantas amigas você perdeu nesses últimos anos? Se eu for contar, só em 2021, foram quatro por violência. E sempre mortas de forma brutal. Eu me lembro quando a Jennifer, uma trans que foi assassinada nos Ingleses [bairro de Florianópolis], recebeu uma barraca com o seu nome no dia da mulher em homenagem a ela. Eu me lembro que a primeira frase que eu disse foi ‘qual será o dia que eu não vou mais estar aqui e vai ter uma barraca com o meu nome?’. Quando a gente sabe que uma amiga sofreu uma violência ou veio a falecer é um misto de tristeza e alívio. O alívio vem por não ter sido a gente — conta a assistente social Lirous Fonseca.
Lirous Fonseca, assistente social
Lirous Fonseca, assistente social
Em anos, Lirous teve que enterrar amigas que perderam a luta contra a transfobia
Em anos, Lirous teve que enterrar amigas que perderam a luta contra a transfobia
Assim como para muitas pessoas transgênero, o processo de transição não foi fácil para Luiza Allui, de 27 anos. Durante anos, a jovem teve que se “conformar” com a aparência masculina, enquanto encontrava forças para assumir sua identidade.
— Eu nasci menino e por 25 anos da minha vida eu me conformei com a minha aparência masculina. Eu vivi e aprendi muitas coisas. Quando eu me dei conta, percebi que eu não era feliz assim, porque eu não conseguia ser quem eu era — relembra.
O processo de transição de Luiza começou há cerca de dois anos e é algo que dura até hoje. Ela conta que o primeiro passo foi a aceitação com ela mesma.
— Nós olhamos no espelho e esperamos que a sociedade nos aceite também. Choca muito quando você está nesse processo, sai na rua e acaba passando por esse tipo de situação [transfobia]. Isso prejudica muito — diz.
Assim como para muitas pessoas transgênero, o processo de transição não foi fácil para Luiza Allui, de 27 anos. Durante anos, a jovem teve que se “conformar” com a aparência masculina, enquanto encontrava forças para assumir sua identidade.
— Eu nasci menino e por 25 anos da minha vida eu me conformei com a minha aparência masculina. Eu vivi e aprendi muitas coisas. Quando eu me dei conta, percebi que eu não era feliz assim, porque eu não conseguia ser quem eu era — relembra.
O processo de transição de Luiza começou há cerca de dois anos e é algo que dura até hoje. Ela conta que o primeiro passo foi a aceitação com ela mesma.
— Nós olhamos no espelho e esperamos que a sociedade nos aceite também. Choca muito quando você está nesse processo, sai na rua e acaba passando por esse tipo de situação [transfobia]. Isso prejudica muito — diz.
Luiza foi vítima de transfobia enquanto trabalhava em Florianópolis
foto: arquivo pessoal
Luiza foi vítima de transfobia enquanto trabalhava em Florianópolis
foto: arquivo pessoal
Durante a transição, foram inúmeros os preconceitos sofridos pela jovem: vagas de emprego negadas, desrespeito do nome social em ambiente públicos, fora a violência verbal. Recentemente, inclusive, ela foi vítima de um caso de transfobia ao fazer um trabalho em uma casa noturna de Florianópolis.
— Eu fui chamada para fazer um job nesse local. Eu estava bem ansiosa, porque fazia tempo que não aparecia um trabalho. No meu portfólio, tinha todos os detalhes de que eu era uma mulher trans. Cheguei no local, coloquei o figurino e fiquei pronta. Porém, minutos depois, um dos organizadores me disse que ele recebeu uma ordem de que eu não podia participar. Ao questionar a dona da agência, ao qual fui contratada, me disse que eu não podia fazer o trabalho porque eu não era mulher e que eu era masculina demais — relata.
Após o episódio, Luiza saiu da casa noturna e contou o que aconteceu em suas redes sociais. Logo, inúmeras pessoas descreveram episódios parecidos com o dela. Além disso, dezenas de pessoas aproveitaram para compartilhar a história, que viralizou nas redes sociais.
O Diário Catarinense procurou a produtora que contratou Luiza para o trabalho, mas até o momento não teve retorno. O espaço segue aberto.
Foi através do acolhimento e da arte que Luiza conseguiu apoio para passar pelo processo de transição. Ela faz parte de uma ONG chamada Casa das Feiticeiras, que ajuda pessoas LGBTQIAP+ por meio da dança, principalmente aquelas que estão passando por algum tipo de dificuldade, seja por não ser aceito na sociedade ou por não ter apoio de familiares.
Mesmo assim, o processo continua, principalmente por ser algo que vai muito além do uso de hormônios.
— Ser mulher não é só você vestir uma roupa. Não é só começar a tomar hormônio ou ter peito. Não é isso, é um rolê muito mais complicado que isso. Não precisamos provar para a sociedade que eu sou mulher. Eu sou mulher sim. Sou trans — salienta.
Durante a transição, foram inúmeros os preconceitos sofridos pela jovem: vagas de emprego negadas, desrespeito do nome social em ambiente públicos, fora a violência verbal. Recentemente, inclusive, ela foi vítima de um caso de transfobia ao fazer um trabalho em uma casa noturna de Florianópolis.
— Eu fui chamada para fazer um job nesse local. Eu estava bem ansiosa, porque fazia tempo que não aparecia um trabalho. No meu portfólio, tinha todos os detalhes de que eu era uma mulher trans. Cheguei no local, coloquei o figurino e fiquei pronta. Porém, minutos depois, um dos organizadores me disse que ele recebeu uma ordem de que eu não podia participar. Ao questionar a dona da agência, ao qual fui contratada, me disse que eu não podia fazer o trabalho porque eu não era mulher e que eu era masculina demais — relata.
Após o episódio, Luiza saiu da casa noturna e contou o que aconteceu em suas redes sociais. Logo, inúmeras pessoas descreveram episódios parecidos com o dela. Além disso, dezenas de pessoas aproveitaram para compartilhar a história, que viralizou nas redes sociais.
O Diário Catarinense procurou a produtora que contratou Luiza para o trabalho, mas até o momento não teve retorno. O espaço segue aberto.
Foi através do acolhimento e da arte que Luiza conseguiu apoio para passar pelo processo de transição. Ela faz parte de uma ONG chamada Casa das Feiticeiras, que ajuda pessoas LGBTQIAP+ por meio da dança, principalmente aquelas que estão passando por algum tipo de dificuldade, seja por não ser aceito na sociedade ou por não ter apoio de familiares.
Mesmo assim, o processo continua, principalmente por ser algo que vai muito além do uso de hormônios.
— Ser mulher não é só você vestir uma roupa. Não é só começar a tomar hormônio ou ter peito. Não é isso, é um rolê muito mais complicado que isso. Não precisamos provar para a sociedade que eu sou mulher. Eu sou mulher sim. Sou trans — salienta.
O sorriso no rosto de Tainan Dutra dos Santos, não esconde a felicidade daquele momento. Aos 21 anos, o jovem, que mora em Jaraguá do Sul, no Norte de Santa Catarina, conseguiu a retificação do nome social em dezembro do ano passado. Mais um passo de uma transição que começou ainda na infância.
Barbeiro nas horas vagas e professor auxiliar, ele conta que desde criança sentia que era mais feliz ao fazer atividades e brincadeiras que eram estereotipadas como sendo “de menino”, como jogar bola. Para ele, inclusive, a transição não começou de uma forma física, mas sim mental.
— Minha transição, na verdade, começou a muito tempo. Eu vim de um período de aceitação onde não tinha muita instrução escolar e muito menos em casa. Porém, aos poucos, eu consegui uma forma de sanar minhas curiosidades e ir montando minha identidade de gênero — relata.
Tainan conta que o processo começou a cerca de três anos, porém, sem o apoio de casa. Apesar de ser recebido bem no local, ele afirma que o principal pensamento da família é de que aquilo “é uma fase”, principalmente do pai que não fala com ele há dois anos.
— Ele ainda não aceita, prefere ignorar, fingir que não é nada e nunca dar opinião sobre, muito menos tocar no assunto — diz.
Mesmo assim, ele conta que não deixou de correr atrás daquilo que sempre desejou e, no meio desse caminho, encontrou uma pessoa que é tida como um “anjo da guarda” na vida do jovem.
Karina Mendes é assistente social e supervisora de um Centro de Referência de Assistência Social (Crass) de Jaraguá do Sul. Ela, com a ajuda da equipe da unidade, criou em agosto do ano passado um projeto que ajuda pessoas transgêneras no processo de retificação do nome social. Em seis meses, ao menos dez pessoas já foram atendidas pela equipe, entre elas Tainan.
— Nós estamos aqui para prestar atendimento a qualquer pessoa que precisar. Nós sabemos da atenção especial que esse público precisa, principalmente pelo medo de ser julgado e maltratado e de não ter a identidade de gênero respeitada. Aqui, a pessoa encontra um espaço seguro e ela traz às suas demandas, que vão além da retificação. Nós vemos o significado que isso traz na vida da pessoa e é gratificante — pontua Karina.
Atualmente, o serviço é realizado em todas as sete unidades do Crass do município. Para ter acesso ao apoio, é preciso que a pessoa faça o agendamento de uma conversa, onde são identificadas as necessidades e quais os tipos de encaminhamentos que são necessários.
O sorriso no rosto de Tainan Dutra dos Santos, não esconde a felicidade daquele momento. Aos 21 anos, o jovem, que mora em Jaraguá do Sul, no Norte de Santa Catarina, conseguiu a retificação do nome social em dezembro do ano passado. Mais um passo de uma transição que começou ainda na infância.
Barbeiro nas horas vagas e professor auxiliar, ele conta que desde criança sentia que era mais feliz ao fazer atividades e brincadeiras que eram estereotipadas como sendo “de menino”, como jogar bola. Para ele, inclusive, a transição não começou de uma forma física, mas sim mental.
— Minha transição, na verdade, começou a muito tempo. Eu vim de um período de aceitação onde não tinha muita instrução escolar e muito menos em casa. Porém, aos poucos, eu consegui uma forma de sanar minhas curiosidades e ir montando minha identidade de gênero — relata.
Tainan conta que o processo começou a cerca de três anos, porém, sem o apoio de casa. Apesar de ser recebido bem no local, ele afirma que o principal pensamento da família é de que aquilo “é uma fase”, principalmente do pai que não fala com ele há dois anos.
— Ele ainda não aceita, prefere ignorar, fingir que não é nada e nunca dar opinião sobre, muito menos tocar no assunto — diz.
Mesmo assim, ele conta que não deixou de correr atrás daquilo que sempre desejou e, no meio desse caminho, encontrou uma pessoa que é tida como um “anjo da guarda” na vida do jovem.
Karina Mendes é assistente social e supervisora de um Centro de Referência de Assistência Social (Crass) de Jaraguá do Sul. Ela, com a ajuda da equipe da unidade, criou em agosto do ano passado um projeto que ajuda pessoas transgêneras no processo de retificação do nome social. Em seis meses, ao menos dez pessoas já foram atendidas pela equipe, entre elas Tainan.
— Nós estamos aqui para prestar atendimento a qualquer pessoa que precisar. Nós sabemos da atenção especial que esse público precisa, principalmente pelo medo de ser julgado e maltratado e de não ter a identidade de gênero respeitada. Aqui, a pessoa encontra um espaço seguro e ela traz às suas demandas, que vão além da retificação. Nós vemos o significado que isso traz na vida da pessoa e é gratificante — pontua Karina.
Atualmente, o serviço é realizado em todas as sete unidades do Crass do município. Para ter acesso ao apoio, é preciso que a pessoa faça o agendamento de uma conversa, onde são identificadas as necessidades e quais os tipos de encaminhamentos que são necessários.
Tainan e Karina no dia que o jovem conseguiu a nova documentação
foto: arquivo pessoal
Tainan e Karina no dia que o jovem conseguiu a nova documentação
foto: arquivo pessoal
Apesar de já ter a documentação em mãos, Tainan afirma que esse é só um dos inúmeros passos que ele pretende nos próximos anos. Um deles é o tratamento de harmonização. Ele conta que há cinco meses aguarda na fila de espera para dar início ao tratamento hormonal e o acompanhamento psicológico.
— O que eu espero para os próximos anos é conseguir o tratamento hormonal, entrar em outra fila de espera do SUS e fazer a retirada dos seios. Quem sabe né? Vai que na luta eu consiga. Vou ficar muito feliz se isso acontecer — diz.
De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde (SES), Santa Catarina não possui uma Unidade de Atenção Especializada no Processo Transexualizador. Para realizar cirurgias de mudança de sexo pela rede pública, por exemplo, os pacientes são encaminhados para unidades em São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro ou Goiás.
Entre 2012 e 2021, 88 pacientes solicitaram o processo no Estado. Segundo a SES, para entrar com o pedido, a pessoa deve procurar a secretaria municipal de saúde onde vive e apresentar a documentação necessária. Depois, o pedido é estudado para que, posteriormente, seja encaminhado para a cirurgia.
Apesar de já ter a documentação em mãos, Tainan afirma que esse é só um dos inúmeros passos que ele pretende nos próximos anos. Um deles é o tratamento de harmonização. Ele conta que há cinco meses aguarda na fila de espera para dar início ao tratamento hormonal e o acompanhamento psicológico.
— O que eu espero para os próximos anos é conseguir o tratamento hormonal, entrar em outra fila de espera do SUS e fazer a retirada dos seios. Quem sabe né? Vai que na luta eu consiga. Vou ficar muito feliz se isso acontecer — diz.
De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde (SES), Santa Catarina não possui uma Unidade de Atenção Especializada no Processo Transexualizador. Para realizar cirurgias de mudança de sexo pela rede pública, por exemplo, os pacientes são encaminhados para unidades em São Paulo, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro ou Goiás.
Entre 2012 e 2021, 88 pacientes solicitaram o processo no Estado. Segundo a SES, para entrar com o pedido, a pessoa deve procurar a secretaria municipal de saúde onde vive e apresentar a documentação necessária. Depois, o pedido é estudado para que, posteriormente, seja encaminhado para a cirurgia.
Santa Catarina também conta com espaços específicos para o atendimento de pessoas transgêneros na área da saúde. Atualmente, são dois ambulatórios, localizados em São José e em Florianópolis, ambos na Grande Florianópolis.
Na Capital, segundo a prefeitura, são realizados em média 170 atendimentos por mês, entre acompanhamento médico, enfermagem, psicologia e de serviço social. O ambulatório foi criado em 2016 e, atualmente, os pacientes são atendidos na Policlínica localizada no Centro da cidade às quartas e quinta-feiras, das 13h às 19h.
Segundo o Médico de Família e Comunidade, Marcos Revilion de Oliveira, a maioria dos atendimentos é visando o processo de hormonização. Porém, ele vê o espaço como algo que vai além da consulta médica.
— Os pacientes sofrem muitos preconceitos, seja nos postos de saúde ou nos centros de saúde. Por isso que até fazemos um acompanhamento clínico mesmo, como de um paciente hipertenso ou um diabético. Infelizmente é bem comum de ocorrer [em unidades de saúde] da pessoa ler errado e não chamar a paciente pelo nome social. Até mesmo quando solicitamos um exame a um laboratório isso não é seguido — explica.
Por conta disso, Marcos conta que o ambulatório trans tem como foco ser um espaço seguro para esse público. Um dos projetos futuros é que o ambiente também realize grupos de convivência para que as pessoas troquem ideias sobre questões que vão além da saúde, como profissional ou familiar.
— Nós temos que pensar que não é só uma questão do hormônio. É preciso fazer um atendimento para pessoas trans, fazer um exame, de uma forma que elas se sintam em um lugar protegido. Por isso, queremos criar uma rede para que eles tenham onde falar e se sentirem seguros — complementa.
Ale Mujica, mestre e doutore em Saúde Coletiva pela UFSC, reforça o quanto esses espaços são importantes, principalmente para garantir que pessoas transexuais tenham acesso a uma saúde de qualidade.
— É importante ter um ambulatório trans e ter esse movimento para que as pessoas trans também possam acessar os espaços de saúde sem serem violentadas. O SUS é a porta de entrada para essa população, mas às vezes a pessoa não consegue acessar por causa dessas barreiras, porque vão sofrer transfobia — diz.
Em São José, segundo a prefeitura, desde maio de 2021, quando o espaço foi aberto, 110 pacientes já buscaram atendimento no ambulatório. O local, além de consultas, oferece orientação e aconselhamento psicológico, e apoio sócio-familiar.
O Diário Catarinense também procurou as prefeituras de Joinville, Chapecó, Itajaí, Lages e Criciúma que informaram, por meio de assessoria, que não tem projetos específicos voltados para atendimento de pessoas trans, mas oferecem o acolhimento por meio das Unidades de Saúde.
Santa Catarina também conta com espaços específicos para o atendimento de pessoas transgêneros na área da saúde. Atualmente, são dois ambulatórios, localizados em São José e em Florianópolis, ambos na Grande Florianópolis.
Na Capital, segundo a prefeitura, são realizados em média 170 atendimentos por mês, entre acompanhamento médico, enfermagem, psicologia e de serviço social. O ambulatório foi criado em 2016 e, atualmente, os pacientes são atendidos na Policlínica localizada no Centro da cidade às quartas e quinta-feiras, das 13h às 19h.
Segundo o Médico de Família e Comunidade, Marcos Revilion de Oliveira, a maioria dos atendimentos é visando o processo de hormonização. Porém, ele vê o espaço como algo que vai além da consulta médica.
— Os pacientes sofrem muitos preconceitos, seja nos postos de saúde ou nos centros de saúde. Por isso que até fazemos um acompanhamento clínico mesmo, como de um paciente hipertenso ou um diabético. Infelizmente é bem comum de ocorrer [em unidades de saúde] da pessoa ler errado e não chamar a paciente pelo nome social. Até mesmo quando solicitamos um exame a um laboratório isso não é seguido — explica.
Por conta disso, Marcos conta que o ambulatório trans tem como foco ser um espaço seguro para esse público. Um dos projetos futuros é que o ambiente também realize grupos de convivência para que as pessoas troquem ideias sobre questões que vão além da saúde, como profissional ou familiar.
— Nós temos que pensar que não é só uma questão do hormônio. É preciso fazer um atendimento para pessoas trans, fazer um exame, de uma forma que elas se sintam em um lugar protegido. Por isso, queremos criar uma rede para que eles tenham onde falar e se sentirem seguros — complementa.
Ale Mujica, mestre e doutore em Saúde Coletiva pela UFSC, reforça o quanto esses espaços são importantes, principalmente para garantir que pessoas transexuais tenham acesso a uma saúde de qualidade.
— É importante ter um ambulatório trans e ter esse movimento para que as pessoas trans também possam acessar os espaços de saúde sem serem violentadas. O SUS é a porta de entrada para essa população, mas às vezes a pessoa não consegue acessar por causa dessas barreiras, porque vão sofrer transfobia — diz.
Em São José, segundo a prefeitura, desde maio de 2021, quando o espaço foi aberto, 110 pacientes já buscaram atendimento no ambulatório. O local, além de consultas, oferece orientação e aconselhamento psicológico, e apoio sócio-familiar.
O Diário Catarinense também procurou as prefeituras de Joinville, Chapecó, Itajaí, Lages e Criciúma que informaram, por meio de assessoria, que não tem projetos específicos voltados para atendimento de pessoas trans, mas oferecem o acolhimento por meio das Unidades de Saúde.
Sofia e Mayla realizaram todo o processo de transição juntas
Foto: Arquivo pessoal
Sofia e Mayla realizaram todo o processo de transição juntas
Foto: Arquivo pessoal
Desde criança, Sofia Albuquerck e Mayla Phoebe Rezende não se desgrudavam. Gêmeas, desde os 3 anos, as duas apresentavam traços de uma cumplicidade que as acompanhou em todos os momentos da vida. Inclusive durante a transição.
Foi com essa idade que as irmãs, que são naturais de Minas Gerais, perceberam que não se identificavam com o corpo masculino em que nasceram.
— Quando eu comecei a me identificar com o sexo oposto, eu tinha 3 anos. Foi quando contei para a minha irmã que gostava do meu vizinho. Nessa época, a gente se abriu uma para outra, e começamos a compartilhar essa experiência — conta Sofia.
Com o tempo, as duas cresceram em meio a um lar que, de diferentes formas, não aceitava tocar no assunto da transição. Aos poucos, as irmãs começaram a pesquisar e entender sobre o processo e o que significava o repúdio que sentiam ainda tão novas.
Segundo Mayla, foi só por volta dos 10 anos, que ela descobriu sobre a cirurgia de redesignação sexual, enquanto voltava da igreja com a família.
— Estava com os meus pais e meus quatro irmãos quando ficamos sabendo da cirurgia. Desde então, eu fiquei com aquilo na cabeça. Eu sempre quis tirar. Eu olhava para o órgão e ficava com repúdio daquilo — salienta.
Durante a adolescência, aos 14 e 15 anos, as gêmeas, de fato, começaram o processo de transição, ao fazer o tratamento hormonal em conjunto. Neste tempo, Mayla ainda convivia com o bullying que sofria, não só de colegas, mas também de professores no colégio que frequentava.
— A primeira vez que eu fui com uma calça apertada [na escola], tacaram um caderno na minha cabeça. Tinha pais que não queriam que andássemos com os filhos deles. Nós éramos muito excluídas — relembra.
Mesmo com as dificuldades, o crescimento para fazer a cirurgia crescia dentro das irmãs. Durante as pesquisas elas descobriram uma clínica particular em Santa Catarina, que trabalha com essa especialidade.
Devido ao preço, no entanto, as duas começaram a juntar recursos para realizar o procedimento. A principal delas veio do avô de Sofia e Mayla que colocou a casa à venda para que, com o dinheiro, as netas pudessem realizar o sonho que surgiu ainda na infância.
— Eu lembro que o meu avô disse que o sonho dele era ver eu e a minha irmã operada. Nós já tínhamos desistido quando encontramos um comprador [para a casa] e conseguimos o dinheiro — diz Mayla.
A cirurgia das duas foi realizada em 10 de fevereiro de 2021, em Blumenau, no Vale do Itajaí. Onze meses depois, Sofia conta que as duas ainda tentam aprender sobre o novo corpo, enquanto se adaptam às novidades.
— Eu sinto mais liberdade. Atualmente, eu posso colocar uma roupa de banho, sem ninguém me julgar. Antes, nós não éramos felizes — afirma.
De acordo com médico José Carlos Martins Júnior, um dos responsáveis pela cirurgia das gêmeas em Blumenau, apesar da procura pelo procedimento, é importante frisar que nem todas as mulheres transgêneros tem o desejo de realizar a redesignação sexual.
— Nós precisamos criar na população leiga a ideia correta que nem todas as mulheres trans querem fazer o procedimento. Os próprios médicos se confundem. Para uma pessoa ser transgênero, ela não precisa fazer nenhum tipo de cirurgia. Ela tem que se sentir bem e feliz. Se a gente começar a falar que o procedimento é necessário, muitas serão infelizes — salienta.
Ao lado do médico Cláudio Eduardo, Martins Júnior tem uma clínica em Santa Catarina desde 2014. Em média, cerca de 20 pacientes são atendidos mensalmente, com as mais diferentes histórias e idades: desde a jovem de 18, que vai acompanhada dos pais, ou da pessoa com 60 que, depois de anos, criou coragem para realizar a transição.
— Já ouvi relatos de pacientes que passaram boa parte da sua vida escondendo quem eram. Ou que diziam “eu sabia que não era gay, porque não gosto de homem, mas me identifico como mulher”. O preconceito está presente desde o primeiro momento que a pessoa se identifica — reforça.
Em fevereiro, Sofia e Mayla pretendem retornar a Blumenau para continuar o acompanhamento médico após a cirurgia. A história das duas, inclusive, repercutiu tanto que, diariamente, elas recebem milhares de mensagens de meninas que, assim como elas, também passam pelo processo de transição.
Para essas pessoas, Mayla, que cursa medicina na Argentina, deixa apenas uma mensagem:
— Que os papais e mamães abracem seus filhos. Não é uma coisa que escolhemos, é o que nascemos. E o apoio deles é essencial. Eu fico triste quando conheço pessoas que foram expulsas de casa, por exemplo. Não estamos fazendo mal para ninguém, nós só estamos sendo quem a gente é — enfatiza.
Desde criança, Sofia Albuquerck e Mayla Phoebe Rezende não se desgrudavam. Gêmeas, desde os 3 anos, as duas apresentavam traços de uma cumplicidade que as acompanhou em todos os momentos da vida. Inclusive durante a transição.
Foi com essa idade que as irmãs, que são naturais de Minas Gerais, perceberam que não se identificavam com o corpo masculino em que nasceram.
— Quando eu comecei a me identificar com o sexo oposto, eu tinha 3 anos. Foi quando contei para a minha irmã que gostava do meu vizinho. Nessa época, a gente se abriu uma para outra, e começamos a compartilhar essa experiência — conta Sofia.
Com o tempo, as duas cresceram em meio a um lar que, de diferentes formas, não aceitava tocar no assunto da transição. Aos poucos, as irmãs começaram a pesquisar e entender sobre o processo e o que significava o repúdio que sentiam ainda tão novas.
Segundo Mayla, foi só por volta dos 10 anos, que ela descobriu sobre a cirurgia de redesignação sexual, enquanto voltava da igreja com a família.
— Estava com os meus pais e meus quatro irmãos quando ficamos sabendo da cirurgia. Desde então, eu fiquei com aquilo na cabeça. Eu sempre quis tirar. Eu olhava para o órgão e ficava com repúdio daquilo — salienta.
Durante a adolescência, aos 14 e 15 anos, as gêmeas, de fato, começaram o processo de transição, ao fazer o tratamento hormonal em conjunto. Neste tempo, Mayla ainda convivia com o bullying que sofria, não só de colegas, mas também de professores no colégio que frequentava.
— A primeira vez que eu fui com uma calça apertada [na escola], tacaram um caderno na minha cabeça. Tinha pais que não queriam que andássemos com os filhos deles. Nós éramos muito excluídas — relembra.
Mesmo com as dificuldades, o crescimento para fazer a cirurgia crescia dentro das irmãs. Durante as pesquisas elas descobriram uma clínica particular em Santa Catarina, que trabalha com essa especialidade.
Devido ao preço, no entanto, as duas começaram a juntar recursos para realizar o procedimento. A principal delas veio do avô de Sofia e Mayla que colocou a casa à venda para que, com o dinheiro, as netas pudessem realizar o sonho que surgiu ainda na infância.
— Eu lembro que o meu avô disse que o sonho dele era ver eu e a minha irmã operada. Nós já tínhamos desistido quando encontramos um comprador [para a casa] e conseguimos o dinheiro — diz Mayla.
A cirurgia das duas foi realizada em 10 de fevereiro de 2021, em Blumenau, no Vale do Itajaí. Onze meses depois, Sofia conta que as duas ainda tentam aprender sobre o novo corpo, enquanto se adaptam às novidades.
— Eu sinto mais liberdade. Atualmente, eu posso colocar uma roupa de banho, sem ninguém me julgar. Antes, nós não éramos felizes — afirma.
De acordo com médico José Carlos Martins Júnior, um dos responsáveis pela cirurgia das gêmeas em Blumenau, apesar da procura pelo procedimento, é importante frisar que nem todas as mulheres transgêneros tem o desejo de realizar a redesignação sexual.
— Nós precisamos criar na população leiga a ideia correta que nem todas as mulheres trans querem fazer o procedimento. Os próprios médicos se confundem. Para uma pessoa ser transgênero, ela não precisa fazer nenhum tipo de cirurgia. Ela tem que se sentir bem e feliz. Se a gente começar a falar que o procedimento é necessário, muitas serão infelizes — salienta.
Ao lado do médico Cláudio Eduardo, Martins Júnior tem uma clínica em Santa Catarina desde 2014. Em média, cerca de 20 pacientes são atendidos mensalmente, com as mais diferentes histórias e idades: desde a jovem de 18, que vai acompanhada dos pais, ou da pessoa com 60 que, depois de anos, criou coragem para realizar a transição.
— Já ouvi relatos de pacientes que passaram boa parte da sua vida escondendo quem eram. Ou que diziam “eu sabia que não era gay, porque não gosto de homem, mas me identifico como mulher”. O preconceito está presente desde o primeiro momento que a pessoa se identifica — reforça.
Em fevereiro, Sofia e Mayla pretendem retornar a Blumenau para continuar o acompanhamento médico após a cirurgia. A história das duas, inclusive, repercutiu tanto que, diariamente, elas recebem milhares de mensagens de meninas que, assim como elas, também passam pelo processo de transição.
Para essas pessoas, Mayla, que cursa medicina na Argentina, deixa apenas uma mensagem:
— Que os papais e mamães abracem seus filhos. Não é uma coisa que escolhemos, é o que nascemos. E o apoio deles é essencial. Eu fico triste quando conheço pessoas que foram expulsas de casa, por exemplo. Não estamos fazendo mal para ninguém, nós só estamos sendo quem a gente é — enfatiza.
Seja nas escolas, nos hospitais ou no dia a dia, as pessoas transgêneros vêm tentando ocupar seus espaços. Além disso, com o crescimento de discussões a respeito da pauta, diversos nomes começaram a ganhar visibilidade nos últimos anos.
Esse ano, por exemplo, cantora e atriz Linn da Quebrada, fez história ao ser a segunda mulher trans a participar do Big Brother Brasil – a primeira foi Ariadna Arantes que participou do programa em 2011 e, só revelou que era transexual, durante a sua eliminação, ainda na primeira semana.
Também no mundo da arte, recentemente, o Globo de Ouro, uma das principais premiações do mundo do cinema, deu o prêmio de melhor atriz a MJ Rodriguez, que é transgênero, pelo seu papel na série Pose. É a primeira vez que uma mulher trans vence a premiação.
Na política, a representatividade trans também vem buscando seu espaço. Na última eleição municipal em 2020, por exemplo, 294 travestis, mulheres e homens trans se candidataram a um cargo – o número foi 275% maior que em 2016, segundo dados da Antra. Em Santa Catarina, foram 12 candidatas, todas para vagas de vereadora. O número representa 0,06% do total de candidaturas para o cargo no Estado.
A estudante de serviço social na UFSC, Mariana Franco, foi uma das candidatas no último pleito municipal por Florianópolis. Ela, inclusive, foi a primeira mulher trans a ter a candidatura aprovada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-SC), quando concorreu ao cargo de deputada em 2018.
Ela conta que o principal motivo para entrar na política foi para ser interlocutora de pautas que envolvem pessoas transgênero.
— Meu corpo é um corpo político. Ele é um corpo politizado, criticado e sexualizado. Nós temos candidatos que se colocam a favor das pautas trans, mas existe um certo momento que não podemos ter pessoas como interlocutoras da nossa voz. Nós precisamos colocar a nossa cara a tapa. É preciso colocar a minha representação — salienta.
Seja nas escolas, nos hospitais ou no dia a dia, as pessoas transgêneros vêm tentando ocupar seus espaços. Além disso, com o crescimento de discussões a respeito da pauta, diversos nomes começaram a ganhar visibilidade nos últimos anos.
Esse ano, por exemplo, cantora e atriz Linn da Quebrada, fez história ao ser a segunda mulher trans a participar do Big Brother Brasil – a primeira foi Ariadna Arantes que participou do programa em 2011 e, só revelou que era transexual, durante a sua eliminação, ainda na primeira semana.
Também no mundo da arte, recentemente, o Globo de Ouro, uma das principais premiações do mundo do cinema, deu o prêmio de melhor atriz a MJ Rodriguez, que é transgênero, pelo seu papel na série Pose. É a primeira vez que uma mulher trans vence a premiação.
Na política, a representatividade trans também vem buscando seu espaço. Na última eleição municipal em 2020, por exemplo, 294 travestis, mulheres e homens trans se candidataram a um cargo – o número foi 275% maior que em 2016, segundo dados da Antra. Em Santa Catarina, foram 12 candidatas, todas para vagas de vereadora. O número representa 0,06% do total de candidaturas para o cargo no Estado.
A estudante de serviço social na UFSC, Mariana Franco, foi uma das candidatas no último pleito municipal por Florianópolis. Ela, inclusive, foi a primeira mulher trans a ter a candidatura aprovada pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE-SC), quando concorreu ao cargo de deputada em 2018.
Ela conta que o principal motivo para entrar na política foi para ser interlocutora de pautas que envolvem pessoas transgênero.
— Meu corpo é um corpo político. Ele é um corpo politizado, criticado e sexualizado. Nós temos candidatos que se colocam a favor das pautas trans, mas existe um certo momento que não podemos ter pessoas como interlocutoras da nossa voz. Nós precisamos colocar a nossa cara a tapa. É preciso colocar a minha representação — salienta.
Mariana foi a primeira mulher trans a ter a candidatura reconhecida no TRE
Foto: Brandão/Divulgação
Mariana foi a primeira mulher trans a ter a candidatura reconhecida no TRE
Foto: Brandão/Divulgação
Apesar de não ter sido eleita em nenhuma das duas candidaturas, Mariana diz que ficou surpresa pelo apoio que recebeu e, principalmente, pela representatividade que ela trouxe ao cenário político catarinense.
— Em 2018, onde houve um movimento político diferente e que a campanha contava com poucos recursos financeiros, eu consegui um bom número de votos. Até fiquei bem surpresa. A minha proposta foi de que as outras mulheres vejam que tem a oportunidade de se candidatar, se é algo que você acredita. Isso até para que outras pessoas pudessem participar e também para que o próprio movimento LGBTQIAP+ veja que podemos ocupar esses espaços — pontua.
Já para a jornalista Gabryella Garcia, que é uma porta-voz e especialista sobre o tema, a ocupação desses espaços ajuda a criar referências e sair dos estereótipos que, constantemente, pessoas trans são colocadas.
— A maioria das pessoas que estão ocupando esses espaços cresceram sem referência. A pessoa parava e pensava que não existia isso. Por isso é importante trazer mais esse debate, da própria existência — salienta.
Apesar de não ter sido eleita em nenhuma das duas candidaturas, Mariana diz que ficou surpresa pelo apoio que recebeu e, principalmente, pela representatividade que ela trouxe ao cenário político catarinense.
— Em 2018, onde houve um movimento político diferente e que a campanha contava com poucos recursos financeiros, eu consegui um bom número de votos. Até fiquei bem surpresa. A minha proposta foi de que as outras mulheres vejam que tem a oportunidade de se candidatar, se é algo que você acredita. Isso até para que outras pessoas pudessem participar e também para que o próprio movimento LGBTQIAP+ veja que podemos ocupar esses espaços — pontua.
Já para a jornalista Gabryella Garcia, que é uma porta-voz e especialista sobre o tema, a ocupação desses espaços ajuda a criar referências e sair dos estereótipos que, constantemente, pessoas trans são colocadas.
— A maioria das pessoas que estão ocupando esses espaços cresceram sem referência. A pessoa parava e pensava que não existia isso. Por isso é importante trazer mais esse debate, da própria existência — salienta.
Aos seis anos, Julie Vegano já sabia o que ela era. Ao conversar com as amigas, ela dizia que o seu sonho era ser menina, ao mesmo que não entendia, durante a divisão da classe, porque ela sempre tinha que ficar com os meninos.
— Desde criança eu me sentia uma menina. Conforme eu fui crescendo, como minha família era religiosa, era difícil externalizar minha identidade de gênero. Eu já entendia que a vivência de uma mulher trans era difícil — relembra.
As notícias sobre a população trans, também não ajudaram. Ela conta que as principais informações que recebia na época eram negativas, de mulheres trans em situação de vulnerabilidade ou violência. Julie tinha medo de que aquilo fosse o único destino para pessoas como ela.
O processo de transição, no entanto, teve início após a jovem entrar em um curso de teatro. Foi nos palcos que ela encontrou outras referências que a ajudaram a entender que ela também poderia ocupar outros espaços.
— Quando eu fiz uma personagem drag, percebi que eu era uma mulher trans e ficou ainda mais esclarecido o que eu era. Foi ali também que eu tive referências de personagens da televisão, como a Rogéria, e nomes da moda que me mostraram que as mulheres trans também poderiam ir a uma faculdade — relembra.
Aos seis anos, Julie Vegano já sabia o que ela era. Ao conversar com as amigas, ela dizia que o seu sonho era ser menina, ao mesmo que não entendia, durante a divisão da classe, porque ela sempre tinha que ficar com os meninos.
— Desde criança eu me sentia uma menina. Conforme eu fui crescendo, como minha família era religiosa, era difícil externalizar minha identidade de gênero. Eu já entendia que a vivência de uma mulher trans era difícil — relembra.
As notícias sobre a população trans, também não ajudaram. Ela conta que as principais informações que recebia na época eram negativas, de mulheres trans em situação de vulnerabilidade ou violência. Julie tinha medo de que aquilo fosse o único destino para pessoas como ela.
O processo de transição, no entanto, teve início após a jovem entrar em um curso de teatro. Foi nos palcos que ela encontrou outras referências que a ajudaram a entender que ela também poderia ocupar outros espaços.
— Quando eu fiz uma personagem drag, percebi que eu era uma mulher trans e ficou ainda mais esclarecido o que eu era. Foi ali também que eu tive referências de personagens da televisão, como a Rogéria, e nomes da moda que me mostraram que as mulheres trans também poderiam ir a uma faculdade — relembra.
Julie se formou em fonoaudiologia em dezembro
Foto: Memorizze Formaturas/Divulgação
Julie se formou em fonoaudiologia em dezembro
Foto: Memorizze Formaturas/Divulgação
Julie, então, fez o vestibular e passou para o curso de fonoaudiologia na UFSC. Na universidade ela começou a receber informações de outras pessoas que também eram transgênero, o que a ajudou a encorajá-la no momento da transição.
Mesmo assim, ela conta que sofreu de transfobia e que teve medo em muitos momentos do curso.
— Não foi fácil. Eu lembro que quando eu mudei o nome da chamada, alguns professores não me chamavam pelo nome social. Eu fui impedida de usar os banheiros porque os funcionários falavam algo — afirma.
Por isso, o diploma, que chegou em dezembro do ano passado, foi tão comemorado. Agora, o desejo de Julie é se especializar em terapia vocal para atender justamente pessoas transgêneras. Isto porque, segundo ela, a voz também é um dos principais motivos para que a população seja discriminada:
— Eu me senti uma vitoriosa. Uma mulher trans se formou em uma universidade. Depois de muita luta, muito choro, foi uma realização tremenda. Para mim foi uma grande conquista, principalmente porque somos impedidas, mas acredito que valeu a pena e todo o sofrimento.
Julie, então, fez o vestibular e passou para o curso de fonoaudiologia na UFSC. Na universidade ela começou a receber informações de outras pessoas que também eram transgênero, o que a ajudou a encorajá-la no momento da transição.
Mesmo assim, ela conta que sofreu de transfobia e que teve medo em muitos momentos do curso.
— Não foi fácil. Eu lembro que quando eu mudei o nome da chamada, alguns professores não me chamavam pelo nome social. Eu fui impedida de usar os banheiros porque os funcionários falavam algo — afirma.
Por isso, o diploma, que chegou em dezembro do ano passado, foi tão comemorado. Agora, o desejo de Julie é se especializar em terapia vocal para atender justamente pessoas transgêneras. Isto porque, segundo ela, a voz também é um dos principais motivos para que a população seja discriminada:
— Eu me senti uma vitoriosa. Uma mulher trans se formou em uma universidade. Depois de muita luta, muito choro, foi uma realização tremenda. Para mim foi uma grande conquista, principalmente porque somos impedidas, mas acredito que valeu a pena e todo o sofrimento.
Julie Vegano, Fonoaudióloga
Julie Vegano, Fonoaudióloga
Aos 52 anos, Bruna resolveu que era hora de assumir a sua identidade de gênero
Foto: Patrick Rodrigues/Santa
Aos 52 anos, Bruna resolveu que era hora de assumir a sua identidade de gênero
Foto: Patrick Rodrigues/Santa
Nas ruas da pequena Calmon, no Meio-Oeste catarinense, é quase impossível não encontrar um morador que não rasgue elogios a médica que atua no município há mais de 20 anos: “foi ela quem convenceu meu marido a procurar o médico!”; “ela é muito querida, está sempre à disposição para ajudar”; “aqui todo mundo gosta da doutora Bruna”.
E não é pra menos. No consultório, a marca daquela pessoa irreverente e amada pelos moradores da pequena cidade, está em todo o canto, seja no carimbo rosa, no estetoscópio colorido ou nas bolsas em cor neon que deixa no canto da sala. Mas, durante parte da sua trajetória na cidade, não era assim que a médica era conhecida.
— Eu anoiteci como Valter e, no outro dia, eu era uma mulher usando salto, calça feminina, maquiagem, lacinho no cabelo, sem medo nenhum — explica Bruna Lahana El Mohamad Neves, de 59 anos.
A médica passou pela transição há sete anos. Foi depois de terminar um relacionamento que ela decidiu que era hora de assumir sua identidade como transgênero. Uma mudança repentina, mas que gerou uma reação positiva.
— Eu não comuniquei, eu me apresentei como mulher e me aceitaram. Até fui preparada para as bordoadas que iria receber, mas eu tive uma bela surpresa. As pessoas me respeitam muito — conta animada.
Apesar disso, ela diz que se arrepende de não ter passado pela transição antes, mas admira a coragem que teve, principalmente pelo apoio que recebeu da mãe e dos amigos após a transição.
Por onde passa, Bruna não deixa de mostrar sua marca característica, que são os laços no cabelo e os trajes coloridos. Os lacinhos no cabelo, inclusive, são sua marca registrada. O carinho é tanto que ela conta que uma paciente de apenas 5 anos pediu para que a mãe comprasse o acessório só porque ela “queria parecer a doutora Bruna”.
Mesmo trabalhando em uma cidade pequena, como Calmon, ela conta que nunca sofreu um episódio de transfobia. Para ela, o segredo está no respeito.
— O segredo é o respeito. Eu sou a mesma pessoa quando era homem e nunca tive nenhum problema por esse tipo de comportamento. Estou há quase 30 anos aqui na região, as pessoas sabem que eu sou uma trans e isso é muito bom, porque a gente convive em plena harmonia — diz.
Apesar disso, ela não deixa de observar o quanto ainda tem pessoas que sofrem com a transfobia em diferentes espaços.
— Eu tenho amigos trans que não se assumem porque a família já deu a entender que não vão aceitar. Eu fico até triste com isso, mas tento incentivar para que eles sejam eles mesmos, não tenham medo. Nós somos iguais a outras pessoas, o que muda é só o nosso gênero — pontua.
Nas ruas da pequena Calmon, no Meio-Oeste catarinense, é quase impossível não encontrar um morador que não rasgue elogios a médica que atua no município há mais de 20 anos: “foi ela quem convenceu meu marido a procurar o médico!”; “ela é muito querida, está sempre à disposição para ajudar”; “aqui todo mundo gosta da doutora Bruna”.
E não é pra menos. No consultório, a marca daquela pessoa irreverente e amada pelos moradores da pequena cidade, está em todo o canto, seja no carimbo rosa, no estetoscópio colorido ou nas bolsas em cor neon que deixa no canto da sala. Mas, durante parte da sua trajetória na cidade, não era assim que a médica era conhecida.
— Eu anoiteci como Valter e, no outro dia, eu era uma mulher usando salto, calça feminina, maquiagem, lacinho no cabelo, sem medo nenhum — explica Bruna Lahana El Mohamad Neves, de 59 anos.
A médica passou pela transição há sete anos. Foi depois de terminar um relacionamento que ela decidiu que era hora de assumir sua identidade como transgênero. Uma mudança repentina, mas que gerou uma reação positiva.
— Eu não comuniquei, eu me apresentei como mulher e me aceitaram. Até fui preparada para as bordoadas que iria receber, mas eu tive uma bela surpresa. As pessoas me respeitam muito — conta animada.
Apesar disso, ela diz que se arrepende de não ter passado pela transição antes, mas admira a coragem que teve, principalmente pelo apoio que recebeu da mãe e dos amigos após a transição.
Por onde passa, Bruna não deixa de mostrar sua marca característica, que são os laços no cabelo e os trajes coloridos. Os lacinhos no cabelo, inclusive, são sua marca registrada. O carinho é tanto que ela conta que uma paciente de apenas 5 anos pediu para que a mãe comprasse o acessório só porque ela “queria parecer a doutora Bruna”.
Mesmo trabalhando em uma cidade pequena, como Calmon, ela conta que nunca sofreu um episódio de transfobia. Para ela, o segredo está no respeito.
— O segredo é o respeito. Eu sou a mesma pessoa quando era homem e nunca tive nenhum problema por esse tipo de comportamento. Estou há quase 30 anos aqui na região, as pessoas sabem que eu sou uma trans e isso é muito bom, porque a gente convive em plena harmonia — diz.
Apesar disso, ela não deixa de observar o quanto ainda tem pessoas que sofrem com a transfobia em diferentes espaços.
— Eu tenho amigos trans que não se assumem porque a família já deu a entender que não vão aceitar. Eu fico até triste com isso, mas tento incentivar para que eles sejam eles mesmos, não tenham medo. Nós somos iguais a outras pessoas, o que muda é só o nosso gênero — pontua.
Bruna Lahana El Mohamad Neves, Médica
Bruna Lahana El Mohamad Neves, Médica
Apesar dos inúmeros avanços, as pautas envolvendo pessoas transgênero em Santa Catarina e no Brasil continuam em um ambiente marginalizado. Um exemplo é que só em 2019 a Organização Mundial da Saúde (OMS) deixou de considerar a transexualidade um distúrbio mental – assunto que há anos era levantado por ativistas.
Para Lirous Fonseca, que também atua em uma ONG que faz o acolhimento de transgêneros de todo o país, a educação é uma das bases para garantir a visibilidade dessa população.
— O combate ao preconceito, ao esclarecimento, é uma base que tem que vir lá na educação. Nós precisamos conversar sobre isso, precisamos que as pessoas levantem as suas cadeiras e dê oportunidade para que as pessoas trans estejam ocupando outros espaços. E acabar com a própria questão da hipocrisia. A família tradicional brasileira nos quer como amantes, mas não quer que a gente ocupe os mesmos espaços que eles. Nós precisamos discutir isso — pontua.
Apesar dos inúmeros avanços, as pautas envolvendo pessoas transgênero em Santa Catarina e no Brasil continuam em um ambiente marginalizado. Um exemplo é que só em 2019 a Organização Mundial da Saúde (OMS) deixou de considerar a transexualidade um distúrbio mental – assunto que há anos era levantado por ativistas.
Para Lirous Fonseca, que também atua em uma ONG que faz o acolhimento de transgêneros de todo o país, a educação é uma das bases para garantir a visibilidade dessa população.
— O combate ao preconceito, ao esclarecimento, é uma base que tem que vir lá na educação. Nós precisamos conversar sobre isso, precisamos que as pessoas levantem as suas cadeiras e dê oportunidade para que as pessoas trans estejam ocupando outros espaços. E acabar com a própria questão da hipocrisia. A família tradicional brasileira nos quer como amantes, mas não quer que a gente ocupe os mesmos espaços que eles. Nós precisamos discutir isso — pontua.
Lirous Fonseca, assistente social
Lirous Fonseca, assistente social
— O medo sempre dá e nós sabemos que temos muito a evoluir. Estamos em um momento de problematização e de falar sobre isso. Já foram muitos anos, uma vida inteira se escondendo e tendo seus direitos negados. Chegou o momento de ocupar todos os espaços.
— O medo sempre dá e nós sabemos que temos muito a evoluir. Estamos em um momento de problematização e de falar sobre isso. Já foram muitos anos, uma vida inteira se escondendo e tendo seus direitos negados. Chegou o momento de ocupar todos os espaços.
Gabryella Garcia, Jornalista
Gabryella Garcia, Jornalista