24/08/2026

FANTASMAS À BEIRA-RIO

Enchentes em série criam bairros abandonados em áreas mais baixas de Rio do Sul, maior cidade do Alto Vale do Itajaí e refém histórica de inundações. Localidades antes cobiçadas pelos compradores se tornaram ruínas urbanas, viram moradores desaparecerem pelo medo do rio e se tornaram um problema social no município

As casas abandonadas e as placas de “vende-se” mudaram a paisagem do que um dia já foi considerado um “bairro-cidade”, com muitos moradores e comércio local fortalecido. Os resquícios daquela época, porém, existem hoje apenas na memória de pessoas como dona Ana Schlatter.

Com lágrimas nos olhos, a aposentada de 77 anos conta que decidiu deixar para trás a casa construída com tanto carinho. Por cinco décadas, o endereço dela foi a Rua Almirante Tamandaré, no bairro Canoas, em Rio do Sul, no Alto Vale do Itajaí. Hoje, a senhora nem quer entrar na residência.

O marido é quem mostra, da varanda do segundo andar, até onde a água chegou em 17 novembro de 2023. Depois daquele dia, quando o nível do Itajaí-Açu bateu 13,04 metros — patamar próximo ao das inundações históricas de 1983, com o pico de 13,58 metros — a cidade viveu mais seis enchentes.

Lá da sacada, a vista também não é mais a mesma. Nas palavras de Ana, a cena do outro lado da rua, em frente à casa dela, parece imagem de guerra. Há um imóvel de madeira ainda com as marcas da última inundação. O mato estava alto até dias atrás. Já são 17 anos de abandono. Ao lado, outra residência destruída. No chão, mais uma entre tantas placas de “vende-se”.

“Mesmo não morando mais aqui, hoje ainda eu chorei. Estou em um apartamento, mas queria a minha casa. Isso dói muito, porque aqui tem muito suor, privações, para a gente construir o que construiu”, desabafa a moradora.

Dona Ana conhecia por nome todos os vizinhos. Recebeu as crianças na própria casa para dar aulas de catequese. Hoje, aponta com o dedo as três residências da rua que ainda são os moradores antigos. Agora, praticamente todos que ali vivem são inquilinos, muitos que vieram de outros estados e até de outros países.

“O cenário aqui é devastador. Eu olho para a rua e só vejo destruição”, diz a aposentada.

A situação chegou ao ponto de as casas abandonadas se tornarem um problema para a prefeitura, principalmente depois das enchentes de 2011 e 2023. Os espaços passaram a ser usados por pessoas em situação de rua. A saída encontrada pelo governo local foi criar, através de lei, um programa de demolição voluntária desse tipo de imóvel.

“Estão invadindo essas casas e usando para consumo de droga, bebida, prostituição. Então se criou essa lei com isenção de taxas e tudo mais para que a gente possa auxiliar essas famílias. Porque a pessoa já perdeu tudo. Ela não tem mais dinheiro nem para demolir a sua própria casa”, explica a secretária de Assistência Social, Maria Helena Zimmermann.

SEM IDADE PARA CARREGAR TANTAS MUDANÇAS

Seu Nildo olha a destruição da casa dos vizinhos no bairro Canoas, um dos mais afetados por cheias em Rio do Sul

Bem perto dali, quem tomou a mesma decisão e teve condições de recomeçar em outro endereço foi seu Nildo Padilha. Com seus 65 anos, o agora ex-morador da Rua Imperatriz Leopoldina, é enfático: “Não tenho mais idade e nem joelhos para aguentar ficar carregando mudança a cada alerta de enchente”.

“Se eu te mostrar casa por casa, dos moradores antigos, aqui tem umas quatro famílias. Saíram por causa da enchente, porque não tem condição. O bairro Canoas está abandonado. Só que a gente gosta de Rio do Sul, porque senão já tinha ido embora. Desanima mesmo”, garante o morador.

A reportagem o conheceu em uma segunda-feira de manhã, enquanto carregava um utilitário com o material reciclável armazenado no galpão de casa. Perguntado sobre o que fazia, contou que estava tirando as coisas da antiga residência. O imóvel já chegou a ficar quase coberto pela água em uma enchente. A marca da cheia na garagem, inclusive, ficou por lá. Ele desistiu de pintá-la.

O encontro com seu Nildo ocorreu logo após um fim de semana de aflição para os moradores de Rio do Sul.

A Defesa Civil do Estado havia previsto uma enchente que poderia chegar a 9,5 metros. Na cidade, as primeiras ruas começam a alagar com 7 metros. O alerta reacendeu o medo da comunidade. Moradores e comerciantes carregaram os caminhões para levar pertences a uma área segura. Mais tarde, a projeção do nível do rio mudou.

A inundação não ocorreu, mas assustou. Mesmo com o sol brilhando e sem perspectiva de mais chuvas para os dias seguintes, era possível ouvir a conversa dos atendentes da padaria às margens da BR-470 sobre a medição do Rio Itajaí-Açu naquele momento. O medo de perder tudo outra vez é uma espécie de fantasma que surge de ano em ano.

“Sabemos que é extremamente necessário alertar as pessoas sobre a projeção do rio. Mas o terrorismo que aconteceu na última semana, dizendo que a previsão era de 9,5 metros foi algo que abalou muito as pessoas. Teve lojas que fecharam as portas. Retiraram suas coisas e não irão voltar”, afirma a coordenadora do Núcleo do Imobiliário da Associação Empresarial de Rio do Sul (Acirs), Juliana Grokslags.

A secretária de Assistência Social traz outro relato. A equipe recebeu a ligação de uma senhora desesperada pedindo ajuda para conseguir um caminhão de mudança. Perguntada sobre para onde ia levar as coisas, já que não havia naquele momento uma enchente e nem um abrigo aberto porque a projeção do rio tinha diminuído, a mulher falou que não sabia. Apenas queria sair de onde estava. 

A vizinha de seu Nildo também saiu da própria casa e foi morar com a mãe, em uma área sem alagamentos. A situação do imóvel dela, de madeira, após uma sucessão de enchentes? Lastimável.

As paredes estão podres, parecem ter entornado. Uma parte nos fundos desabou e um pedaço do telhado também não resistiu mais. A dona encaixotou tudo e colocou nos cômodos que ainda não molham quando a chuva cai. Os estragos são tantos que reformar deixou de ser opção.

Empresa foi embora e galpão virou depósito

Ademir Tambosi leva móveis para galpão às vésperas de mudar de endereço por conta das enchentes

Ademir José Tambosi, de 74 anos, é outro morador da Rua Imperatriz Leopoldina. Reformou a casa o quanto pôde, tirou os móveis de lá em vários momentos e, mesmo assim, perdeu a conta de quantas enchentes enfrentou e o prejuízo acumulado. Até que recentemente a esposa bateu o martelo: é hora de deixar esse endereço no passado.

Ela não quer mais viver a agonia de esperar se vem ou não mais uma enchente.

O casal vai morar na residência antiga de uma filha, em área longe dos alagamentos. Muitos móveis que eram dela serão utilizados pelos pais. Por isso, aos poucos, o professor aposentado está levando os próprios pertences para o galpão que um dia já abrigou uma empresa da cunhada.

Cansados das enchentes, os donos do espaço mudaram de endereço. Conseguiram alugar parte do galpão. Outro espaço abriga as mudanças dos funcionários que moram ali perto quando a previsão indica cheia. É ali que Ademir já colocou parte das suas coisas, incluindo as varas de pescar que tanto gosta.

Ele já saiu de casa em outros momentos, mas não tinha sido definitivo. Relembra que alugou uma casa por R$ 1,7 mil ao mês. Queria alugar a dele também para tentar equacionar o valor que estava gastando, porém sem sucesso. Mesmo pedindo entre R$ 600 e R$ 800, não teve interessados. O imóvel ficou vazio por quatro meses.

A corretora Juliana Grokslags afirma que “os valores podem variar até R$ 1,5 mil a mais nos lugares que não pegam enchentes”. Um levantamento da Secretaria de Assistência Social de Rio do Sul mostra que, atualmente, a maioria das pessoas em áreas alagáveis paga aluguel.

Preços dos imóveis despencam

Mãe de Cláudia aguarda há anos para vender casa, mas esbarra na falta de compradores

A expectativa de Ademir agora é colocar a casa à venda. O desafio é o valor.

“Vou ficar lá um tempo, ver o que vai dar… O vizinho ali vendeu por R$ 200 mil. Aqui ofereceram R$ 250 mil, mas são três casas. Esse valor não compensa. Eu queria uns R$ 800 mil, porque daí eu consigo comprar duas menores. Uma para mim, uma para a filha e pronto”, planeja Ademir.

Esse descompasso nos valores dos imóveis é outro problema em Rio do Sul e não é uma exclusividade de moradores do bairro Canoas. Na Rua Arnoldo Wutzow, na Bela Aliança, a mãe de Claudia Suchra tenta vender a casa desde 2022, como anuncia a placa em frente ao portão. Em 2023, a proprietária chegou a reformar todo o imóvel para ver se surgiam mais interessados. Não funcionou.

A jovem conta que as casas foram construídas ali pela prefeitura e durante as obras houve uma inundação. Em vez de desistir do local, a solução do governo foi erguer com pilares os imóveis, como é possível observar na residência da mãe de Cláudia. O problema é que, ali, a água chega quando o Rio Itajaí-Açu atinge 7,41 metros. É uma das primeiras a alagar na cidade.

“As pessoas desanimaram, cansaram, foram embora e botaram de aluguel. E o pessoal vem, mora um pouco e vai embora quando dá uma enchente”, desabafa. 

A imobiliária avaliou a casa onde Cláudia cresceu em R$ 200 mil. São duas construções em um terreno grande. Mas ela conta que a mãe não acreditava que conseguiria esse valor. Queria uns R$ 140 mil. A proposta que receberam, porém, ficou longe do esperado: “R$ 50 mil não paga nenhum terreno para ela sair daqui. E a idade vai chegando. Todo mundo vai cansando de ficar puxando mudança. Não tem jeito, para não morar na rua, tem que morar aqui”, reconhece. 

Ruínas de casa que foi desmanchada após enfrentar mais uma entre tantas enchentes

Alguns metros dali, na Rua Demétrio Fachini, ainda no bairro Bela Aliança, até o pastor desistiu. Só restaram as paredes e lá dentro uma cruz. As telhas, janelas e portas foram doadas para moradores próximos, para quem mudar de endereço ainda não é uma opção.

Mas porque as pessoas ainda compram ou alugam casas nessas áreas? A resposta é simples: o valor mais baixo. Áreas que não pegam inundação no município tiveram uma valorização de 30%, de acordo com Núcleo do Imobiliário da Associação Empresarial de Rio do Sul (Acirs). A secretária de Assistência Social de Rio do Sul, Maria Helena Zimmermann, diz que entende bem a situação. “É a única oportunidade que o cidadão tem. Ele vai comprar aquilo que o dinheiro dele alcança”.

A chefe da pasta aponta que o Bela Aliança e o Canoas não são os únicos dois bairros com regiões sensíveis para alagamentos. Ela cita ainda o Santa Rita e o Jardim Alexander. 

Tem solução à vista?

Um dos projetos para amenizar cheias em Rio do Sul passa por construção de canal extravasor na Usina Salto Pilão, em Lontras.

O Vale do Itajaí tem a maior bacia hidrográfica de Santa Catarina e fica entre montanhas, o que explica os episódios recorrentes de enchentes. E dois dos maiores rios da região, o Itajaí do Sul e o Itajaí do Oeste, se encontram justamente no Centro de Rio do Sul, onde formam o Itajaí-Açu. Parte da água que vem desses dois rios pode ser controlada hoje com as barragens de Ituporanga e Taió. 

Como medida emergencial, após as enchentes de 2023, o governo de SC limpou trechos dos principais rios da cidade. A prefeitura tem feito o mesmo em ribeirões. Mas uma solução mais robusta passa por grandes obras, como a barragem de Mirim Doce, que deve ajudar a reduzir a água que chega a Rio do Sul em épocas de chuva frequente. O edital para licitação foi lançado e a obra deve custar R$ 105 milhões ao governo do Estado. 

Quando houver empresa vencedora definida, serão pelo menos mais dois anos e meio para o projeto se tornar realidade. A obra está atrasada há nove anos. 

“Só que essa água que vem de Atalanta, Agrolândia, Mirim Doce, ela vem em um corredor que não tem barramento nenhum, a gente não consegue controlar e também não consegue prever muito. O que está dentro das barragens a gente já consegue estudar, prever. Então seria importante também um barramento nessa água que vem dessa região”, explica o secretário Municipal de Segurança Pública, responsável pela Defesa Civil, Mário Ponticelli Júnior.

A outra grande obra — ainda sem nenhuma previsão sequer de que vai ser feita — é o melhoramento pluvial entre Rio do Sul e Lontras, com remoção de maciços rochosos no fundo do Itajaí-Açu e construção de um canal extravasor próximo à Usina Salto Pilão. Assim como a barragem de Mirim Doce, são intervenções previstas há uma década através de parceria com a Agência de Cooperação Internacional do Japão (Jica).

A prefeitura de Rio do Sul diz ter uma legislação que proíbe a construção abaixo de uma certa cota de inundação, a depender da área da cidade escolhida. Mas frisa que deve avançar no tema com o Plano Rio do Sul 2050. A ideia é de que se tenha algo parecido com o que existe em Blumenau, indicando, por exemplo, o tipo de construção permitida conforme a cota de enchente da rua. 

Um levantamento da Secretaria de Assistência Social da cidade revela que quando o nível do Itajaí-Açu atinge 7 metros, cerca de 250 pessoas precisam ser acolhidas em abrigos. Esse número duplica quando a inundação chega a 9 metros. 

Prefeitura planeja criar programa habitacional

Secretária Maria Helena Zimmermann mostra as áreas suscetíveis a inundações no mapa de Rio do Sul 

A secretária de Assistência Social, Maria Helena Zimmermann, diz que a prefeitura de Rio do Sul pretende desenvolver, em 2027, um programa de habitação. Recentemente, o governo fez o cadastramento de famílias com renda de até R$ 3,2 mil que não têm imóvel próprio. O objetivo é saber o tamanho do déficit habitacional e tirar essas pessoas do aluguel, sobretudo as mais vulneráveis, que vivem em áreas de risco. 

A secretária explica que a ideia é o município oferecer um subsídio às famílias, por exemplo, de R$ 30 mil. Juntando esse valor com o saldo de FGTS, poderia bancar a entrada de uma casa ou apartamento, que a pessoa entenda bom, de até R$ 350 mil, diz Maria Helena.

“A gente precisa, sim, trabalhar para desenvolver essas famílias. Temos um levantamento mostrando que na maioria das regiões onde a água chega mais rápido são casas alugadas. E as pessoas, de repente, que pagam R$ 1,2 mil de aluguel, elas vão usar esse dinheiro para pagar o seu financiamento. Essa vai ter a oportunidade de sair da enchente”, afirma.

O problema é desafiador, afirma o arquiteto Christian Krambeck. Ele defende que as prefeituras, sobretudo aquelas mais suscetíveis a desastres naturais como as enchentes, tenham setores multidisciplinares ou parcerias com universidades para desenvolver estudos e projetos voltados ao tema. Além disso, solucionar a questão passa, na visão do especialista, pela existência de um Plano Diretor e Plano de Saneamento e Drenagem que preveja ações para áreas de inundação e guie o avanço populacional para áreas adequadas. 

Krambeck enfatiza ainda a necessidade de respeitar as Áreas de Preservação Permanente (APPs), construindo longe das margens de rios e ribeirões e preservando a mata ciliar. E quando não se tem alternativas possíveis, por vezes, a saída é realocar essas famílias em outras áreas, mas frisa a necessidade de diálogo permanente com esses moradores, definido prazos e metas para essas ações e transparência na divulgação dessas projeções. 

“Quando são áreas realmente muito baixas, que têm de ser desocupadas, precisa ter uma política pública de realocação e habitação social em parceria com o governo federal. Porque os municípios não têm verba suficiente para isso. Aí é um planejamento de médio e longo prazo. Porque uma solução para 2050 não quer dizer que não deva e possa começar imediatamente”, defende o arquiteto. 

Enchentes DOS ÚLTIMOS ANOS em Rio do Sul

Ano Data do Pico Nível (m)
202412 de julho7,49
2024Julho7,39
2024Maio7,34
202418 de maio8,97
2023Novembro8,33
2023Novembro6,77
202317 de novembro13,04
2023Novembro8,20
2023Outubro7,78
202313 de outubro11,86
2023Julho7,30
2022Outubro6,42
2022Outubro7,47
2022Junho6,72
2022Maio9,34
2020Setembro6,46
2019Dezembro6,89
2018Maio7,55
2017Junho10,89
2016Outubro6,68
2015Outubro10,71
2015Outubro8,75
2015Outubro7,24
2015Setembro7,23
2014Outubro8,16
2014Junho9,42
2014Junho7,76
2013Setembro10,39
2011Setembro12,96
2011Agosto8,76
2011Agosto8,83
2011Julho6,50
2010Abril7,53
2009Setembro8,55
2007Novembro6,76
2005Setembro7,64
2005Maio6,87
2004Setembro6,89
2002Novembro7,15
2001Outubro9,10

Fonte: Defesa Civil de Rio do Sul

Expediente

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