Relatos de familiares mostram diferentes formas encontradas para lidar com o luto e como o estigma ainda dificulta a falar sobre a perda
“O suicídio é um dos piores lutos que se pode ter. Você lida com a culpa. Tem receio de falar a respeito. As pessoas não querem falar que perderam um familiar dessa forma. Mas ter buscado ajuda em grupos me ajudou bastante.” O relato é de Alexandre Cid Netto, de 58 anos. Morador de Florianópolis, ele perdeu o filho, de 24 anos e o enteado, de 21, por suicídio em 2019, com menos de um mês de diferença.
As mortes do filho e do enteado de Alexandre entraram para a estatística dos 9.280 óbitos por suicídio registrados em Santa Catarina entre 2015 e 2025 e ainda deixam marcas na família depois de meia década.
“Meu filho faleceu em junho e em agosto era o aniversário dele. Eu tive uma crise de pânico e fui buscar ajuda. Cheguei a consultar um psiquiatra, que me enviou para o CAPS [Centro de Atenção Psicossocial]. Lá, falaram que era para procurar um psicólogo, não senti que deram muita atenção”
Alexandre Cid Netto, do Grupo Reviver de Acolhimento aos Enlutados do Suicídio (Graes)
Na ocasião, Alexandre ainda não conhecia grupos de acolhimento voltados a familiares de pessoas que morreram por suicídio. Em busca de apoio para lidar com a própria dor, ele fundou, ao lado de psicólogos, o Grupo Reviver de Acolhimento aos Enlutados do Suicídio (Graes), que promove conversas com teor de acolhimento para participantes de todo o país.
“Desde 2020 fazemos reuniões mensais. As pessoas vêm para desabafar. Geralmente aparecem mães enlutadas. Os homens não aparecem muito, por mais que tenhamos criado também um grupo específico para eles. Em Santa Catarina, mesmo com um índice bem elevado de suicídios, quase não vemos pessoas daqui pedindo ajuda, participando dos grupos”
Alexandre Cid Netto, do Grupo Reviver de Acolhimento aos Enlutados do Suicídio (Graes)
Para Cristina*, de 22 anos, o luto teve outro contorno. O pai morreu por suicídio em fevereiro de 2025, no Sul de Santa Catarina, mas os dois mantinham uma relação distante. Eles não se viam havia cerca de dois anos e estavam há meses sem conversar.
A notícia da morte provocou uma mistura de sentimentos. Ela conta que, além da angústia pela morte, teve dificuldade para entender como deveria reagir diante da perda de alguém que já não fazia parte de sua rotina.
“Apesar de eu ter essa relação bem confusa e distante com ele, eu ainda era filha dele. Pessoas da minha família contaram que ele passava por uma situação complicada na vida pessoal. Mas eu não sabia se deveria sentir raiva, tristeza, chorar, ou ficar normal. Quando fui ao velório, me questionava se deveria ficar ou ir embora dali”
Cristina*
Um dos apoios mais importantes, segundo ela, foi a mãe, que não tentou determinar como a filha deveria viver o luto. Em vez disso, deu espaço para que ela falasse sobre a relação com o pai e expressasse emoções que nem sempre correspondiam ao que as outras pessoas esperavam.
“Ela falava para mim: ‘Olha, está tudo bem você sentir isso. Não tem problema se você quiser ir embora, não tem problema se você quiser chorar. Se não quiser chorar também, está tudo bem’”, recorda.
Cristina diz que não manteve um sentimento de culpa pela morte do pai. Para ela, a distância que existia entre os dois e as circunstâncias da relação ajudaram a compreender que não cabia a ela responder pelo que aconteceu.
“Uma coisa que eu nunca senti durante todo esse período de luto foi a questão da culpa”, afirma.
Isso não significa, porém, que a perda tenha deixado de afetá-la. A jovem conta que ainda sente essa ausência e que esse deve ser um sentimento que irá acompanhá-la pela vida toda.
“Embora não seja recorrente, é um sentimento que ainda está aqui. Eu não consigo ver um filme que tem relação de pai e filha muito forte, ou uma música de pai e filha. Antes, eu conseguia lidar mais com essas obras culturais, mas agora já não tem como. A forma que eu encontrei de lidar com esses ‘socos na cara’ que o luto te dá é conversando, é sendo muito aberta sobre a situação. Eu sei que em grande parte dos casos as pessoas não gostam de falar sobre isso”, conclui.
Cristina*
O estigma em torno da morte por suicídio pode dificultar que familiares falem sobre a perda e encontrem espaços de acolhimento, além de contribuir para que o tema continue invisibilizado. É o que observa o psicólogo Pedro Geremia, que atua com pessoas enlutadas na UFSC e integra o Laboratório de Processos Psicossociais e Clínicos no Luto.
“A maior dificuldade é que ainda é uma circunstância de morte com muito estigma. As pessoas acabam ficando envergonhadas socialmente de dizer que perderam algum ente querido para o suicídio. Até mesmo entre os pares enlutados, nos grupos que são voltados para o luto de suicídio, há uma dificuldade de escuta”, pontua.
A perda de alguém próximo por suicídio pode gerar diferentes sentimentos ao enlutado. Pedro aponta que, seja em grupos reflexivos ou por meio de terapia, é importante que essas pessoas possam falar especificamente sobre esse tipo de morte.
“Uma questão muito difícil no luto por suicídio é a busca pelo porquê. ‘Por que fez isso? Por que não conversou comigo? Eu estava aqui. O que fiz de errado?’. A pessoa fica pensando em possibilidades do passado que não pode mudar. Nunca sabemos se, caso algo tivesse sido diferente, o desfecho também teria sido outro ou se alguém seria culpado. Como são muitas as causas envolvidas, é uma culpa compartilhada”
Pedro Geremia, psicólogo que atua com pessoas enlutadas na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e integra o Laboratório de Processos Psicossociais e Clínicos no Luto (LAPPSILu)
As duas experiências revelam que, diante de uma perda cercada por perguntas e pelo preconceito, poder falar sobre o que aconteceu faz diferença. O acolhimento não elimina a ausência nem oferece respostas para todas as dúvidas, mas pode ajudar a impedir que o sofrimento seja enfrentado em silêncio.
As experiências trágicas de Alexandre e Cristina mostram que, de fato, não existe uma maneira única de enfrentar o luto em razão do suicídio. Em comum, as histórias revelam a importância de encontrar espaços para prevenção, buscas por ajuda e acolhimento para uma resposta que talvez nunca possa chegar contra a dor inevitável da perda.
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Relatos de familiares mostram diferentes formas encontradas para lidar com o luto e como o estigma ainda dificulta a falar sobre a perda
Edição:
Abinoan Santiago I abinoan.santos@nsc.com.br
Nicoly Souza I nicoly.souza@nsc.com.br
Reportagem:
Kauê Alberguini I kaue.pereira@nsc.com.br
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