O mapa do suicídio em SC: gênero, profissão e cidades mais atingidas pela tragédia

Menores cidades de Santa Catarina concentram as maiores taxas de suicídio e números superam a média do país

Dados obtidos com exclusividade pelo NSC Total, via LAI na SES, mostram a dimensão das mortes por suicídio em Santa Catarina ao longo dos últimos 11 anos. O número anual de óbitos passou de 642, em 2015, para 1.034, em 2025, uma alta de aproximadamente 61% no período.

O levantamento mostra diferenças importantes entre os municípios catarinenses: enquanto cidades mais populosas concentram os maiores números absolutos de mortes, municípios pequenos aparecem entre aqueles com as maiores taxas proporcionais à população.

O cenário também chama a atenção quando comparado ao restante do país. Em 2025, Santa Catarina apresentou a terceira maior taxa de mortalidade por suicídio do Brasil.

“Devem ser investigadas as condições de trabalho e renda, a segurança alimentar, o endividamento, a instabilidade profissional, o isolamento social, a violência, o uso problemático de álcool e outras substâncias, o sofrimento psíquico e as dificuldades de acesso a um cuidado oportuno e contínuo”, aponta Debora Popadiuk, psicóloga da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicidio (ABEPS).

Cidades pequenas de SC concentram as maiores taxas de suicídio

Em números absolutos, Joinville – o mais populoso em Santa Catarina – lidera o ranking de suicídios no Estado, com 511 mortes entre 2015 e 2025. Na sequência aparecem Florianópolis, com 470, Blumenau, com 415, e Chapecó, com 300. O cenário, porém, é diferente quando se considera a proporção pelo número de moradores.

Lajeado Grande, no Oeste catarinense, apresentou a maior taxa média anual do Estado no período, com 124,3 mortes por 100 mil habitantes. Foram 23 registros ao longo dos 11 anos. São Miguel da Boa Vista, com 61,7 mortes por 100 mil habitantes, e Macieira, com 61,3, aparecem na sequência.

Joinville teve o maior número de mortes, tendo a população como hipótese para o volume de óbitos. Isso se inverte em cidades menores.

Além de Lajeado Grande, os demais municípios com altas taxas de mortalidade também são pequenos, com característica populacional inferior a 2 mil habitantes, segundo o Censo 2022, e com economia voltada para a agricultura. O fator rural é visto como um fator que associa a distância geográfica de atendimentos em saúde. 

“A distribuição dos serviços, as distâncias até os pontos de atendimento e as características locais de trabalho e vida comunitária podem variar bastante dentro do estado. Vale investigar possíveis barreiras geográficas e de acesso, condições de trabalho e disponibilidade de apoio. Essas hipóteses, porém, precisam ser verificadas com dados e escuta das comunidades”, pondera Débora.

Nota Metodológica

O cálculo da taxa anual média segue os padrões técnicos utilizados por órgãos de saúde e pesquisas epidemiológicas para a normalização de indicadores. A métrica resulta da divisão do total de óbitos no período (2015-2025) pelo número de anos analisados (11), sendo o valor ponderado pela população residente (Censo IBGE 2022) a cada 100 mil habitantes. Este procedimento permite a comparação direta da incidência entre municípios de diferentes portes populacionais, neutralizando distorções demográficas.

Quais faixas etárias concentram os maiores registros em Santa Catarina

A distribuição por idade mostra que as mortes estão concentradas principalmente entre adultos. A faixa dos 50 aos 54 anos reúne 948 registros entre 2015 e 2025, o maior número entre os grupos etários da base da Secretaria de Estado da Saúde. Na sequência aparecem as pessoas de 40 a 44 anos, com 907 mortes, e de 35 a 39 anos, com 899.

Ao todo, as faixas dos 30 aos 59 anos somam 5.253 registros, cerca de 57% do total analisado. O levantamento também contabiliza mortes entre adolescentes, jovens e idosos, mostrando que o fenômeno atravessa diferentes etapas da vida.

O que se sabe sobre as ocupações das pessoas que morreram

Entre as ocupações com mais casos, aposentados e pensionistas lideram a estatística, registrando 613 ocorrências. Em segundo lugar aparecem pedreiros (523) seguidos das donas de casa (406). Os casos de ocupação ou profissão não informada totalizam 722.

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“São várias questões que podem ser colocadas como hipóteses. O suicídio é visto como multifatorial. Poderíamos falar, por exemplo, de jornadas de trabalho exaustivas, das condições de trabalho, que podem ser insalubres. Tem a questão econômica, do poder aquisitivo. Quando se fala de casos graves de saúde mental, é necessário olhar para muitos fatores”

Bráulio Peluso, médico que trabalha em um CAPS

O recorte também mostra que o domicílio foi o local mais comum para a ocorrência das mortes, com 64,7% dos registros. Quanto à escolaridade, o maior volume é em pessoas com Ensino Fundamental Incompleto.

Nesse cenário, Sérgio Scotti, doutor em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo (USP), destaca a importância do estabelecimento de protocolos e políticas públicas de prevenção ao suicídio, buscando uma integração e colaboração entre municípios, governo de estado e União, em busca de ajuda a pessoas de diversos segmentos sociais, escolaridade e lugares de Santa Catarina.

“Esse trabalho deve ser feito em conjunto com a participação de profissionais de saúde, psicólogos, psiquiatras, médicos e assistentes sociais, UBSs e hospitais, com participação também do pessoal que atua no CVV, que tem grande experiência na questão”.

Joinville busca ampliar atendimentos

Em Joinville, município com maior número de casos nos últimos 11 anos, a prefeitura informa que a rede municipal oferece atendimento multidisciplinar, com psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, profissionais de enfermagem e terapeutas ocupacionais. Os CAPS realizam rodas de conversa e atividades coletivas com usuários em acompanhamento. Nos casos de violência autoprovocada, as notificações são monitoradas pela Vigilância Epidemiológica e pelo Núcleo de Prevenção à Violência Autoprovocada (NPVA), que repassa as informações aos CAPS para busca ativa, acolhimento e encaminhamento dos pacientes conforme a necessidade.

O município também ampliou, em 2024, a estrutura e a equipe do CAPS infantojuvenil Cuca Legal, que realiza em média 60 acolhimentos por mês e mantém cerca de 150 usuários em acompanhamento. Em julho de 2026, o Serviço Organizado de Inclusão Social (SOIS) recebeu habilitação como Centro de Convivência e Cultura pelo Ministério da Saúde, com previsão de R$ 480 mil anuais para manutenção das atividades.

Como pedir ajuda

  • Centro de Valorização da Vida (CVV): oferece apoio emocional gratuito, sigiloso e anônimo pelo telefone 188, disponível 24 horas por dia, todos os dias. Também é possível conversar por chat ou e-mail, pelo site oficial do CVV. O serviço é feito por voluntários capacitados para escutar e acolher quem precisa conversar, mas não substitui o tratamento com profissionais de saúde.
  • Unidades Básicas de Saúde: são uma das portas de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS). As equipes de saúde da família podem fazer o acolhimento inicial, avaliar a necessidade de atendimento e orientar o acompanhamento em saúde mental. A pessoa pode procurar a unidade de referência do município onde mora.
  • Centros de Atenção Psicossocial (CAPS): oferecem atendimento especializado a pessoas em sofrimento psíquico ou com transtornos mentais, incluindo situações relacionadas ao uso de álcool e outras drogas. O primeiro acolhimento pode ser procurado diretamente em um CAPS, sem necessidade de agendamento prévio ou encaminhamento. Para localizar o serviço mais próximo, consulte a Secretaria de Saúde do município ou a página do Ministério da Saúde sobre os CAPS.
  • Rede estadual de saúde mental: em Santa Catarina, a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) reúne serviços municipais e estaduais, incluindo atenção básica, CAPS, hospitais e unidades de urgência e emergência. A Secretaria de Estado da Saúde de Santa Catarina apresenta os componentes dessa rede. O Estado também mantém o Instituto de Psiquiatria de Santa Catarina (IPq/SC), em São José, que conta com emergência psiquiátrica 24 horas. O telefone geral da unidade é (48) 3664-3400.

CVV

188

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Edição:
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