O primeiro que eu vi embarcar no trem foi um sujeito chamado W.C. Handy. Ele contava uma história de como, um dia, ouviu um homem tocando violão com um canivete; e aquele ritmo não saiu mais de sua cabeça. Inspirado nesse personagem, ele escreveu a música St. Louis Blues, uma das primeiras que ouvimos a bordo. Logo foram aparecendo outros; viajantes solitários que iam e vinham por estes trilhos, recriando com os violões e gaitas de boca cantos que já eram familiares aos ouvidos dos sulistas.
Um dia, apareceu um passageiro que roubou a cena: Robert Johnson era o nome dele, um sujeito que viajou com o Blues por não mais que dois anos – mas que nunca mais foi esquecido. Sim, senhor, o tal Johnson era um talento daqueles; mas também era cercado de histórias sinistras… Ou interessantes, dependendo do ponto de vista. O boato que corria é que, numa noite de lua nova, na encruzilhada entre as rodovias US 61 e US 49, em Clarksdale, no Mississippi, Johnson fez um pacto com o próprio Diabo: vendeu a alma em troca de talento e sucesso. Vocês acreditam nessas coisas, y’all? Ele morreu com 27 anos, depois de beber um uísque envenenado pelo dono de um bar – que tinha ciúmes da esposa, e achava que ela tinha um caso com Johnson. Será que foi o Diabo vindo reclamar a alma do sujeito?
Muito mais gente entrou e saiu desse trem conforme o tempo foi passando e o Blues foi avançando pelos trilhos – e novas estações foram sendo construídas para dar conta da demanda, cada uma com suas características…