a ponte hercílio luz como

encontro de histórias

Reabertura da Ponte Hercílio Luz reuniu milhares de pessoas em 2019 e marcou o retorno daquela que virou símbolo de Santa Catarina. Revitalizado, o patrimônio histórico hoje é mais do que um ponto de travessia entre Ilha e Continente, mas um local que reúne histórias, cultura e lembranças que fazem parte do cotidiano de quem mora em Florianópolis ou daqueles que só estão de passagem pela Capital. 

Reinauguração da Ponte Hercílio Luz reuniu milhares de pessoas em dezembro de 2019 (Foto: Tiago Ghizoni)

Foram quase 30 anos em que a Ponte Hercílio Luz permaneceu interditada. Mais precisamente 28 anos, cinco meses e 26 dias em que a “Velha Senhora” não recebeu carros, carroças, bicicletas ou pedestres. Por isso, quando o monumento foi reaberto, no final de 2019, a população da Grande Florianópolis se reuniu em peso para prestigiar o grande momento. 

Também quis estar lá para andar pela primeira vez no novo gradil de aço da Hercílio Luz. Naquele 30 de dezembro de 2019, o tráfego de veículos ainda não estava liberado, algo que só seria feito em setembro de 2020, ainda em fase de testes. Por isso, os pedestres não perderam a oportunidade de ocupar todo o vão central naquele dia de sol, logo no início do verão, já com as temperaturas nas alturas e “céu de brigadeiro”, praticamente sem nuvens – muito diferente de quando ela foi inaugurada pela primeira vez, em 13 de maio de 1926, quando uma chuva torrencial ameaçou espantar a população daquele dia histórico. 

Meu pai sempre me contava histórias de quando a ponte, ainda no século passado, recebia milhares de carros por dia, e de como meu avô fazia a travessia Ilha-Continente, todos os dias, para ir trabalhar ainda quando o piso era de madeira. Não pude ver isso de perto, já que quando nasci, em 2002, a estrutura já estava fechada. Por isso, sonhava em um dia conseguir ter essa experiência por conta própria. 

No dia da reabertura, quando cheguei na rua Quatorze de Julho, que fica localizada bem abaixo da cabeceira na área continental, me deparei com um cenário que me deixou de boca aberta. 

Eram milhares de pessoas. De longe, pareciam “formiguinhas”, todas juntas ocupando o mesmo espaço, aproveitando a programação com a banda da Polícia Militar e do Coral do Banco do Estado de Santa Catarina (BESC). Dava para ouvir ali mesmo, da rua, as risadas, a música e a alegria do povo. Subi e cheguei até a cabeceira, com a esperança de que conseguiria aproveitar a festa também. 

No fim, eram tantas, mas tantas pessoas, que resolvi deixar para outro dia a minha caminhada pela nova “Velha Senhora”. Só para se ter uma noção, ao menos 200 mil estiveram na Ponte Hercílio Luz para o evento, segundo dados do Governo do Estado.

Não demorou muito para que eu tivesse a experiência completa. No dia 5 de janeiro de 2020, prestigiei a 1° Corrida da Ponte, outro evento que fazia parte das celebrações de reabertura do cartão-postal da cidade. Dessa vez, pude andar pela Hercílio Luz e ver o mar abaixo dos pés, o que causa até uma sensação de vertigem. O sorriso não saiu do rosto nem por um minuto. Era a realização de um sonho. 

O arquiteto Joel Pacheco, autor do livro “Ponte Hercílio Luz – Uma Ligação de Amor”, também teve uma experiência parecida. Apesar de ter uma história profunda com a estrutura, vivendo durante a infância em uma casa ao lado de onde hoje é o Forte Santana aos pés da Hercílio Luz, no dia da inauguração ele não estava em Florianópolis. Por isso, no livro, repleto de fotografias da obra de restauração, a única imagem dos dias atuais que não foi tirada por ele é justamente a da reabertura. 

— No dia da inauguração, eu não estava aqui, por incrível que pareça. Eu tinha uma viagem marcada já há um ano e eu não sabia quando que a ponte ia reabrir. Então, eu tenho um amigo, o Fernando Teixeira, que é fotógrafo, e eu pedi para ele tirar uma foto para mim no dia da inauguração — lembra. 

Mas não demorou muito para que o reencontro acontecesse. O escritor conta que visitou a ponte apenas uma semana depois da reabertura. Ele afirma que, mesmo após esses dias, a quantidade de pessoas atravessando a estrutura ainda era “uma loucura” e sentiu uma grande emoção ao ver a população usufruindo do patrimônio restaurado depois de tantos anos.  

— Para mim foi uma emoção muito grande principalmente depois que eu vi como as pessoas estavam utilizando para o lazer. Eu lembro de vir até aqui e encontrar uma moça que estava fazendo aniversário e comemorando na ponte, com balão e tudo mais — lembra Joel.

Já o engenheiro civil Wenceslau Diotallevy lembra que tamanha era sua alegria ao ver o Patrimônio Histórico da cidade sendo novamente utilizado, que ergueu a esposa nos braços e a rodopiou, sendo flagrados por câmeras de curiosos que prestigiavam aquele momento. 

— Foi muito especial ver a ponte aberta de novo. Para mim, foi uma vitória da engenharia — destaca o profissional que trabalhou durante a restauração da ponte nos anos 2010. 

VOCÊ SABIA QUE...

1926

41.000 habitantes

Dezenas de carros

2026

587.486 habitantes

16 mil carros

Nascido nos “braços” da Hercílio Luz

A reabertura da Ponte Hercílio Luz foi ainda mais especial pela influência que o monumento tem nas histórias individuais de cada morador de Florianópolis. Para o cabeleireiro Gilberto David, de 62 anos, a “Velha Senhora” é muito mais do que apenas um local para percorrer um trajeto. Isso porque a Hercílio Luz foi a “maternidade” dele, mais precisamente no dia 3 de setembro de 1963, às 11h30min, quase horário de pico.

Era um dia de semana com o trânsito a todo vapor. Na época, a Hercílio Luz ainda era a única ligação entre a Ilha de Santa Catarina e o Continente. O pai de Gilberto era juiz de futebol de várzea e, naquele dia, insistiu em sair para apitar um jogo, apesar dos avisos da esposa de que estava sentindo que a criança nasceria. 

A intuição da mulher estava certa. Pouco depois que o pai saiu da casa, localizada em Capoeiras, bairro da região continental de Florianópolis, a mãe de Gilberto entrou em trabalho de parto. 

— Ele pegou as chuteiras, os aparatos, foi para porta e falou: “Vou jogar bola”. A minha mãe falou assim: “Não, essa criança é para hoje”. Então ele respondeu que ela só estava falando aquilo porque não queria que ele fosse apitar o jogo. Meu pai saiu e, alguns minutos depois, minha mãe começou a sentir todas as contrações — conta, com base nas histórias que ouviu quando criança. 

Os vizinhos, então, iniciaram uma força-tarefa, chamando a ambulância do Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência (Samdu). O veículo passou no campo onde o pai de Gilberto apitava o jogo e seguiu rumo à maternidade Carmela Dutra, no Centro de Florianópolis. Pelo menos, esse era o plano. 

O cabelereiro, no entanto, queria nascer logo. Enquanto a família atravessa a Ponte Hercílio Luz, naquela manhã agitada de setembro, ele nasceu.

— O enfermeiro bateu no vidro do carro e falou para parar a ambulância porque minha mãe já estava ganhando neném. Dizem que atrás da ambulância tinha um ônibus, um pessoal da antiga fábrica de bordados, que xingou muito, porque nós literalmente paramos o trânsito — conta, aos risos. 

Depois do parto e os primeiros procedimentos, a ambulância seguiu finalmente para a maternidade. Com as coisas mais calmas, faltava registrar o neném. Foi então que os familiares deram a ideia de pôr o nome da criança de “Hercílio”, em homenagem à ponte. 

A mãe, no entanto, não concordou por achar o nome comum, já que no bairro em que morava, tinha um vizinho com a mesma alcunha. Foi escolhido então Gilberto, em homenagem ao médico que cuidou de mãe e filho na maternidade. O cabeleireiro diz, no entanto, que ficaria feliz se tivesse sido registrado com a identidade daquele foi o percursor da construção da estrutura. 

— Eu acho que seria uma homenagem. Eu ficaria muito feliz. Ficaria muito mais registrado do que já é, teria o nome da ponte… Imagina, seria uma junção muito legal, não teria o menor problema para mim — destaca. 

Gilberto nascer em cima da Hercílio Luz na década de 1960 (Foto: Patrick Rodrigues, NSC Total)

Após o nascimento, a Ponte Hercílio Luz seguiu fazendo parte do cotidiano de Gilberto, tanto que ele nem lembra quando foi a primeira vez — fora quando estava na ambulância — que passou pelo monumento. O cabelereiro conta que em inúmeras vezes a mãe trazia ele e os dois irmãos para passear na Praça XV de Novembro e, para isso, era necessário atravessar a ponte. 

Ainda, lembra até hoje quando viu as notícias de que a “Velha Senhora” seria fechada, em 1991, inclusive achando que a ponte cairia:  

— Meu medo era dela desabar. Eu ia ficar muito triste, tive muito medo de não voltar a passar por ela. Nós passávamos ou pela Ponte Colombo Salles ou pela Pedro Ivo, e eu ficava pensando: “puxa, será que eu nunca mais vou voltar lá?” 

Hoje, Gilberto vê a ponte como uma extensão de si mesmo. Comemora aniversários e atravessa a estrutura sempre que tem oportunidade, mesmo morando no Norte da Ilha. No dia da reinauguração, no entanto, também não estava na cidade, mas lembra que esteve no local em um domingo próximo à reabertura. 

— Eu lembro que eu passei por ela e quando voltei fiquei muito emocionado com a situação. É difícil explicar e colocar para fora o que a gente sente, mas é uma coisa única. É uma história única, uma autenticidade — destaca. 

Para ele, a Hercílio Luz é o lugar mais bonito que existe em todo o planeta. 

— Não tem outro. É um lugar que eu me sinto muito bem, muito tranquilo. Acho que todo catarinense olha para a ponte e a vê como o símbolo de Santa Catarina. É o nosso símbolo — completa.

a ponte muito além da travessia

Como patrimônio, a ponte testemunhou a transformação de Florianópolis no último século. Sua construção em 1926 exigiu a remodelagem de ruas, a demolição de casarios coloniais e até a transferência do cemitério da cabeceira insular para o bairro Itacorubi, consolidando a cidade como a Capital do Estado.

Para além da arquitetura de aço, majestosa e imponente, a ponte também esteve presente nas artes, tendo sido cenário do primeiro longa-metragem catarinense, “O Preço da Ilusão”, em 1958, por exemplo. Também foi inspiração para diversos artistas plásticos, como Sandra Vogel, que se inspira em Romero Britto, utilizando das cores para retratar a beleza da Ponte Hercílio Luz; e Jesivan da Silva, que usa materiais descartados da obra para compor suas esculturas.

Depois que foi restaurada, o conceito de patrimônio histórico se expandiu para o uso social. Hoje, ela é vista mais do que uma obra feita para a mobilidade urbana, apesar de ainda ajudar no trânsito – conforme a Polícia Militar Rodoviária (PMRv), 16 mil veículos passam por ela diariamente. 

A Hercílio Luz se tornou um espaço turístico, gratuito e acessível. Durante os finais de semana, fecha para o tráfego de veículos e fica livre para a passagem de pedestres pelo vão central. Também se tornou palco de uma feira de carros antigos e até de atrações musicais, como a Orquestra de Baterias, que já reuniu mais de 60 músicos simultaneamente em 2020. Fora o show de luzes e fogos que acontecem diretamente da estrutura durante as comemorações de Ano Novo na Capital, todos os anos. 

A ponte também virou negócio. Isso fica claro quando os pedestres passam pela Hercílio Luz aos finais de semana e encontram diversos fotógrafos, oferecendo serviços para os nativos e turistas que querem ter um registro com o monumento, ou as barracas que ficam na cabeceira e oferecem desde artesanato até produtos gastronômicos. Nesse mesmo âmbito, a ponte também já foi cenário de casamentos, pedidos de noivado e até chá revelação de bebês. Ou seja: são inúmeras as histórias que se concentram naqueles 819 metros de distância entre Ilha e Continente. 

O historiador Francisco do Vale Pereira ressalta que o patrimônio só é verdadeiramente “vivo” quando está integrado à rotina das pessoas. Hoje, a Hercílio Luz cumpre esse papel ao ser um espaço de lazer, memória e contemplação, onde a população cria novas lembranças. 

— Temos que viver esses patrimônios. Quanto mais se vive, mais memória, mais identidade nós temos — aponta o historiador. 

Viva. É assim que o arquiteto Joel, o engenheiro Wenceslau, o historiador Francisco, o jornalista Maurício Oliveira, o cabeleireiro Gilberto, e eu, a repórter que vos escreve, e outras milhares de pessoas vemos a Ponte Hercílio Luz. Um patrimônio vivo, a “alma da cidade”. 

Com a restauração do monumento, a expectativa é que, se a manutenção for feita corretamente, a estrutura perdure por mais 50 anos. Mas o ideal é que ela siga presenciando as transformações de Santa Catarina e as histórias de seus moradores por mais 100. 

confira as demais reportagens da série "100 anos da 'velha senhora'"

Construção, na década de 1920, surge em meio ao isolamento e a necessidade de firmar Florianópolis como a Capital.

Após inauguração, estrutura se tornou mais que um ponto de travessia e virou um símbolo histórico e cultural de SC.

Falta de manutenção e descaso com a ponte tornaram a Hercílio Luz um problema complexo para SC. 

Restauração da Ponte Hercílio Luz é iniciada em 2005, mas execução é rodeada de polêmicas.

Revitalizada, hoje a Ponte Hercílio Luz é mais do que um ponto de travessia entre Ilha e Continente.

Em 1922, Florianópolis ainda guardava o charme de uma pequena província, até que Hercílio Luz decidiu construir uma ponte.

CRÉDITOS:

Alexia Elias: reportagem     l  alexia.elias@nsc.com.br

Luana Amorim: edição     l    luana.amorim@nsc.com.br

Patrick Rodrigues: fotografias e vídeos     l    patrick.rodrigues@nsc.com.br

Ben Ami Scopinho: artes e design     l    ben.scopinho@nsc.com.br